REFLEXÕES - Fotografia X Smartphone dá pra comparar?

Uma das questões que têm chamado a atenção dos fotógrafos de plantão é o fato de que, atualmente, a maioria dos gadgets tecnológicos vêm com "Câmeras Fotográficas" o que leva, fatalmente, mais pessoas a produzirem "fotografias" mesmo sem ter ideia do que é, de fato, Fotografia. Nada contra e tudo a favor, contudo, vale a pena refletir a respeito.

Ao longo de minha carreira acadêmica, boa parte dela, foi dedicada ao ensino da Fotografia. Comecei esse percurso com a Fotografia Analógica e, por sorte, cheguei à Fotografia Digital. Digo sorte por ter vivenciado essa transformação de meios, modos e processos passo a passo. Minha condição de professor, também possibilitou que delimitasse um campo de investigação que chamo de Pensamento Fotográfico. Em síntese, esse campo corresponde às reflexões desenvolvidas para entender e processar as relações entre os aspectos técnicos e os aspectos conceituais da fotografia como modo de entende-la enquanto processo e significação.

Como dizia Lavoisier: Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma! Obviamente não coloquei a parte em que ele dizia: na Natureza, mas acredito que essa constatação serve muito bem para a ciência, a cultura e, principalmente, para a Arte.

Voltando ao assunto: um Smartphone tem mesmo uma câmera fotográfica?
A resposta mais honesta, direta e simples é: NÃO!

Já que fotografia é Imagem, como bom professor devo explicar o que isso significa. Primeiro é necessário “rebobinar o filme”, retroceder ao momento em que o ser humano criou a Imagem.

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Animais na caverna de Altamira, Espanha, as primeiras imagens encontradas produzidas na pré-história.
As primeiras imagens surgiram na pré-história e mostram figuras de animais, seres humanos esquematizados e formas nem sempre reconhecíveis. São construções visuais realizadas por meio de diversos materiais, sejam em pinturas e desenhos realizados nas superfícies das cavernas ou gravadas e esculpidas em pedaços de madeira, ossos ou ainda modeladas em argila. Uma questão que sempre incomodou os estudiosos foi: por que ou para que tais imagens eram realizadas? Várias hipóteses foram aventadas para responder a isso, contudo, continuamos sem respostas. De modo geral acredita-se em algumas linhas: uma que justifica tais criações como parte de rituais em que as imagens eram realizadas para propiciar a caça, dai a teoria da Magia Propiciatória; outra seria simplesmente o interesse funcional que movia o ser humano a reproduzir tais animais para cultuá-las e outra opção seria simplesmente, por que admiravam estes animais e, ao recriá-los, buscavam uma função essencialmente estética, logo, artística. Quaisquer linhas adotada para explicá-las é plausível. No entanto, olho para sua essência significativa e não para suas possíveis finalidades. Adoto uma postura pragmática, quase um mantra, cujo resumo é: Imagem é uma configuração visual geradora de sentido.

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Imagens pré-históricas, encontradas no Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil. 
Imagem, do latim imagine, se refere àquilo que se assemelha a com alguma coisa conhecida ou algo idealizado.
A ideia de semelhança, contida na imagem, remete a possibilidade de aproximação com algo pré existente, nesse sentido, ela substitui algo que pode não estar ali. Sendo assim é capaz de imitar, simular outra coisa, dai surge o conceito de representação, aquilo que está, se projeta, se refere, se coloca em lugar ou em nome de outrem.

A apreensão visual dos aspectos luminosos e espaciais do meio depende da visão, do olho humano. Tal apreensão é realizada pelos olhos e enviadas ao cérebro onde são transformadas em informações imagéticas. Assim, perceber se refere ao nosso modo de apreender o mundo natural, recortando-o segundo um viés sensório, cultural, ideológico e cognitivo. O conceito de percepção vem do latim Percipere, cujo sentido é: apropriar-se de.

Resumindo, pode-se dizer que os dados luminosos e espaciais obtidos do mundo natural são reoperados, ressignificados por meio das imagens, independente dos meios utilizados para realizá-las. Então, imagens podem ser produzidas de várias maneiras: modeladas, esculpidas, pintadas, grafadas por incisão ou desenhadas e também fotografadas.

Entendendo a imagem como configuração visível, pode-se dizer que representar é dar existência plástica ao que é apreendido nas relações entre o ser humano e o mundo sensível ou cultural por meio das manifestações que podem ser percebidas, apreendidas e realizadas visualmente por ele. Em última instância, imagem é aquilo que nos coloca em relação com algo, afeta nossos sentidos e promove a cognição, ou seja, gera, produz sentido, significação.

Toda imagem significa! Quer seja suas próprias condições, qualidades sensíveis e plásticas ou os assuntos e temáticas que aborda ou registra. Seu sentido mínimo é sua própria existência material. Podem ter um ou vários sentidos, cumprir uma ou diversas funções na sociedade, enfim, significam aquilo que a humanidade, a cultura lhe atribui ou quer que signifique.
Assim, as imagens são realizadas de acordo com o contexto no qual surgem e em função do que se espera ou se propõe que signifiquem. Cada cultura, tempo ou lugar tem a imagem que a identifique quanto à forma, estilo ou função.

Por milênios as imagens foram realizadas pela mão humana e dependentes de habilidades cognitivas e motoras das pessoas que as criavam. Num dado momento, deixam de ser realizadas exclusivamente pela mão humana e passam a ser feitas também por meio de aparelhos óticos.

A fotografia surge no século XIX, decorrente da busca por meios mais práticos para reprodução de imagens. Considero que a Fotografia surge como consequência da busca por meios de reprodução gráfica e não, necessariamente, como o fim em si mesma. Independente do modo com surge o importante é que passa a ser um dos meios de apreender e registrar o visível. Coincidentemente, no momento em que ela surgiu, a Arte Visual passava por uma série de transformações que abdicavam da tradição clássica acadêmica e adotavam novas estratégias criativas e discursivas, especialmente, por meio da experimentação estética. Portanto, a fotografia nasce em meio a essas transformações.

Por uma feliz coincidência, essa busca pela reprodução de imagens faz com que alguém consiga reproduzir uma imagem do natural sem intervenção da mão humana, ou seja, por meio da luz, assim surge a Fotografia, ou seja, do grego: Foto=luz + Grafia=desenho. Com isso, tudo o que era produzido por meio da pintura, do desenho, passa a contar com mais um meio, um aparelho ótico capaz de captar e registrar num suporte sensível e, além disso, passível de reprodução em série.
Bem, chegamos à fotografia, pode-se dizer então que ela é uma imagem plana, bidimensional e fixa, obtida por meio de um aparelho ótico-sensível passível de manipulação.

Se ela é o resultado da manipulação de um aparelho, o que faz com que esse aparelho seja capaz de produzir/reproduzir imagens?

O princípio da fotografia se baseia num fenômeno ótico que pode ser chamado de Estenopéico. Do grego, estenopo, significa orifício, furo. Uma informação luminosa, ao passar por um orifício, projeta essa informação na área oposta à fonte que a gerou. A constatação desse fenômeno proporcionou o surgimento da Camera Obscura, um ambiente fechado, em que se fazia um orifício numa de suas faces para que projetasse, na face oposta, a reprodução dessa informação.

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Primeira ilustração, de 1544, mostrando o fenômeno luminoso estenopeico na constituição de uma Camara Obscura.
O seu uso se destinava a facilitar o desenho. Essas câmaras eram grandes o suficiente para que uma pessoa entrasse dentro delas e reproduzisse a imagem projetada por meio de desenhos.
Representações dos séculos XVII, XVIII de aplicação do efeito estenopéico em Câmaras Escuras
Sugestão da projeção de uma imagem por meio de um estenopo.

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Ilustração sobre o princípio estenopeico, destinado à reprodução de imagens tomadas do mundo natural.

A Câmara Escura é o primeiro invento que recorre à obtenção de imagens por meio de uma projeção luminosa, contudo, ainda não é capaz de fazer com que a imagem, projetada na superfície oposta ao orifício, seja capaz de auto-registrar-se.

A primeira imagem obtida por meio exclusivamente fotográfico, ou seja, realizada sem o apoio da mão humana, foi considerada a que Joseph Nicephore Niépce, realizou em 1826-27, vista da janela de sua casa em Chalon-sur-Saône, frança.

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Esta é considerada a primeira imagem obtida por meio da luz realizada por Joseph Nicephore-Niepce em torno de 1826-27. 
Como é possível perceber, a imagem obtida pelo processo original, é muito precária, praticamente, um borrão.
Assim, surgem as comparações e a conclusão óbvia de que a fotografia não teria futuro, pois suas imagens eram piores do que as do pior dos artistas.
Contudo o desenvolvimento da ótica e dos processos químicos e depois digitais, tornou possível captar e registrar imagens exclusivamente por meio da luz. As fotografias se tornaram um dos meios mais eficientes de reprodução do visível desenvolvendo até a crença de que esse registro era sinônimo de verdade já que era tomado diretamente do mundo natural, sem intervenção da mão humana. Por isso, esse registro, passou a ser usado como um meio de documentação capaz de produzir o efeito de veridicção, pois se acreditava que: Uma imagem fotográfica não mente!

Ledo engano, como já disse: uma imagem fotográfica é obtida por meio de sistema ótico-sensível passível de manipulação!


Uma Câmera Fotográfica é um aparelho composto de elementos óticos e mecânicos capazes de ampliar a capacidade de um simples olhar. Possui ajustes para cada uma das possibilidades que se colocam diante dela sejam luminosas, espaciais ou temporais, ou seja, a imagem não é tomada direta ou espontaneamente do meio, mas sim decorrentes de escolhas, recortes, redesenhos e ressignificações que são, numa linguagem mais simples, manipulações.

Anatomia de uma DSLR
Esquema de uma câmera fotográfica digital, (https://davidtran.com.au/index.php?start=21)
Essa manipulação começa com o ajuste do estenopo, do orifício. Ele pode ser manipulado por meio da alteração de sua dimensão que pode ser aumentada ou diminuída o que implica em diminuir ou aumentar o Foco e a Profundidade de Campo. O mecanismo que possibilita estas variações se chama Diafragma. O efeito visual dessas manipulações resultam em imagens mais nítidas e com maior profundidade quando se usam aberturas pequenas e, ao contrário, quando se usam aberturas grandes, o efeito é oposto: menos foco e menor profundidade.

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Números F relacionados às variações de abertura do Diafragma.
Foco é a qualidade da imagem e Profundidade de Campo a capacidade de produzir foco em profundidade diante da câmera. Quanto menor a abertura maior é a PF, ao contrário, quanto maior a abertura, menor é a PF

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Usando abertura maior é possível produzir "foco seletivo", ou seja, focar parte da imagem e desfocar outra parte. Isso serve para reforçar o interesse sobre algo e reduzir o interesse do que não se quer destacar. ( https://br.freepik.com/ )
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Ao usar aberturas pequenas obtêm-se "foco contínuo", maior profundidade de campo.
 ( https://olhares.sapo.pt/profundidade-de-campo-foto1845343.html )
Isso não é tudo, dada a possibilidade de registrar a imagem luminosa num suporte sensível, esse suporte deve ser capaz de reter tal imagem. Ele é capaz de reter essa imagem desde que exposto por um dado período de tempo. Para ter uma ideia de período, diz-se que a imagem gravada por Niepce foi exposta durante oito horas. Um “instantâneo” como se diz, seria impraticável naquela época. Contudo, o desenvolvimento da química e depois dos sensores digitais, fez com que, hoje em, seja possível obter imagens em milésimos de segundo, logo, pode-se também manipular o Tempo de Exposição de uma tomada. O mecanismo que possibilita esta variação se chama Obturador. A base de cálculo para tal variação é o período de 1 segundo subdividido pela metade até frações milesimais. O efeito de sentido obtido por meio deste tipo de manipulação resulta em imagens “congeladas”, quando usamos velocidades altas e “borradas” quando usamos velocidades lentas. Assim aquilo que se movia no momento da tomada a imagem pode ser fixado ou não, logo: Borrar ou não, eis a questão!

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Uma tabela de velocidades do obturador relacionada ao tempo de exposição do sensor na câmera.
Velocidades mais rápidas fixam a imagem, velocidades mais lentas borram a imagem. Para melhor entender a tabela, é bom usar figuras:

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      1/500                                     1/30                                    1/10            

Esta imagem ilustra bem os efeitos de variação da velocidade do obturador de uma câmera fotográfica.
( https://famous.brilio.net/ )

Deste modo, o que chamamos de Manipulação nesse contexto, se refere às condutas de “ajustar” os mecanismos e recursos da câmera às condições luminosas e ambientais para produzir uma imagem adequada ao sentido proposto, ou seja, compatíveis com o que se quer dizer.
Aqui reside uma questão prioritária na construção de imagens: O da fotografia que se recusa a ser um “espelho”, uma imitação, registro do mundo natural e quer se instaurar como um recurso de criação. Ao invés de ser uma fotografia documental, quer ser uma fotografia Autoral.
Nesse sentido, quer ter a mesma liberdade criativa e expressiva que os outros meios de criação artística possuem. Tal intenção é razoável já que boa parte das poéticas artísticas disponíveis no contexto da arte atual decorrem da vontade, das proposições e propostas dos artistas sem preocupações em serem fiéis ou não ao mundo visível. Porque só a fotografia deveria permanecer fiel ao “espelho do real”?

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Rayograph Spiral, 1923, Fotografia de Man Ray, um dos primeiros autores a abdicar da representação do natural e investir na criatividade, invenção e investigação fotográfica.

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Distorção, Andre Kertész, 1933.

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Edward Weston, 1930.

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Fotografia de José Yalenti, um dos brasileiros a incorporar o conceito de Fotografia Moderna.

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Fotografia de José Oiticica.

A partir do trabalho de artistas como Man Ray, Kertész, Weston, Yalenti e Oiticica, foi possível entender também a fotografia como afastamento do natural, explorando as possibilidades criativas e inventivas. Assim nasce a chamada Fotografia Autoral, que adotou a liberdade criativa e expressiva como qualquer outro meio de criação artística. 
Esse tipo de abordagem procura se afastar ao máximo da automação e dos modelos absolutos definidos e impostos pelos fabricantes de câmeras e pelas convenções socias da fotografia e, como recurso, recorre à ruptura ou à subversão do hardware, como explica Vilém Flusser, na Filosofia da Caixa Preta, e se torna dona de sua própria criação, expressão e significação.

Aqui volto para a questão inicial: Um smartphone é uma Câmera Fotográfica?
E repito a resposta inicial: NÃO!
Acredito que agora seja mais fácil explicar porquê.

O sistema de captação/edição de imagem de um aparelho de telefonia celular não corresponde às características tampouco aos recursos que uma Câmera Fotográfica possui.
Estes aparelhos possuem apenas softwares “simuladores de imagens fotográficas” e não produtores de fotografias.

Uma câmera fotográfica possui diferentes componentes passíveis de ajustes que se destinam a adequar as condições luminosas e espaciais à imagem que se pretende criar e, os Smartphones não. Eles não possuem Diafragmas, obturadores, lentes variáveis e/ou manipuláveis que são os elementos distintivos e característicos de uma câmera fotográfica. Nesse caso, não há possibilidade da realização de ajustes relacionados à luz, ao foco, à velocidade, à sensibilidade e tampouco possibilitam a variação de lentes.

Contudo, como possuem softwares para processamento de imagens altamente sofisticados, apresentam excelentes resultados, muitas vezes, melhores do que se a mesma pessoa optasse pelo uso de uma câmera fotográfica no lugar de um Smartphone. Obviamente porque estes aparelhos são projetados para dar ao usuário a sensação de domínio sobre as habilidades fotográficas.
Se as câmeras profissionais possibilitam a captação e edição de imagens segundo os interesses do autor, os smartphones só fazem imagens de acordo com sua programação/automação.
Somos enganados ou iludidos por estes aparelhos, já que eles limitam nossa intervenção sobre eles? Então o que fazer a partir de tais limitações?
Nesse caso há limitações quanto ao tipo de imagens que se pode obter, mas não se é impedido de obter imagens. Mesmo assim é possível atuar no processo de tomada da imagem e impor a ele uma boa dose de autonomia criativa.

Desde sempre as imagens fotográficas foram resultantes das opções do autor. Obviamente que tais opções podem ser limitadas ou expandidas de acordo com as condições técnicas, conceituais, estéticas ou mesmo ideológicas. Entretanto, no contexto da Arte, não há limitações.
Independente dos ajustes de uma câmera fotográfica ou a falta deles num Smartphone, a escolha do assunto é uma opção do autor, logo, a primeira pergunta que se deve fazer ao decidir fazer uma imagem é: O que eu quero registrar?

O que é relevante para mim ou para os outros que me leva a pensar em registrar?
Se esta primeira questão foi resolvida, se uma abordagem, tema, assunto ou proposta foi definida, a questão que vem a seguir é:
Como eu devo registrar?
O que leva a outra questão:
Como recortar a cena que está diante de mim? Como selecionar os elementos e o espaço que se coloca diante de mim? Como transformar aquilo que tenho à frente em imagem?

Assim chegamos à COMPOSIÇÃO uma das coisas que, independente do meio que se usa para fazer fotografias, é comum a todos eles.
Composição é o nome dado ao processo de organizar o espaço virtualizado pela imagem nos limites do suporte visível.
A tradição artística definia regras para composição: segmento áureo, regra dos terços ou simetrias eram recursos usados pelos artistas para organizarem o espaço em suas obras desde a antiguidade. A Fotografia, como filha da Arte e da Tecnologia, seguiu os mesmos passos. O recurso mais comum, recomendado por muitos fotógrafos, para fazer fotografias é a regra dos terços.
    
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Construção do Retângulo Áureo, indicado desde a antiguidade para organizar o espaço de modo não simétrico.

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Regras de Fibonacci para definir as proporções espaciais.



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Grid da "regra dos terços", indicada para compor imagens fotográficas.

Como se vê, há várias indicações e regras para organizar o espaço compositivo, mas lembre-se sempre da primeira, unica e definitiva regra: Não há regras!
Um ponto a favor: a tela do aparelho é retangular e pode ser posicionado na horizontal, vertical ou diagonal. Nesse sentido, a Composição é então o recurso que resta, considerando que os Smartphones não são câmeras fotográficas, mas são preparados para construir imagens já tratadas. Assim é possível obter boas imagens nesses aparelhos.

A primeira questão que deve ser considerada é: Qual a melhor posição para tomar a imagem?
Em fotografia chamamos a isso de Enquadramento.
O enquadramento é a posição em que o autor observa o ambiente para recortar a imagem que quer registrar e o que se pretende dizer com ela. O enquadramento ou recorte pode ser feito a partir de vários ângulos na tomada ou ainda na edição.

Um enquadramento convencional é o Central:

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https://www.publicdomainpictures.net/

O enquadramento lateral dá um toque mais dinâmico à imagem:

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Cannon College.

Acima/ascendente e Abaixo/descendente ou ainda combinando estas posições
Cada um deles impõem sentidos diferentes às imagens.

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Tomada Ascendente, aumenta a pressão da dimensão sobre o observador.

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Tomada Descendente aumenta o domínio do espectador sobre o ambiente. (https://pauzicka.zoznam.sk/)
Outra questão importante é a Distância da tomada, grandes distâncias falam sobre o todo, imagens mais próximas revelam detalhes e descrições mais apuradas.

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Uma tomada à distância revela aspectos gerais, dão uma visão panorâmica e informam sobre o todo. (https://www.urbanarts.com.br/)
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Uma tomada próxima revela detalhes mais significativos sobre o assunto, explica melhor. (https://www.shutterstock.com/)
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Tomadas próximas, como um close, revelam muitos detalhes, como textura e detalhes da imagem. (https://br.pinterest.com/)
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A macrofotografia é um tipo de aproximação extrema, amplia a tomada e revela detalhes que, nem sempre o olho é capaz de perceber. (https://fotografianinja.com.br/)
Além disso, há a possibilidade de tratamento, edição, no próprio aparelho ou ainda em softwares de edição de imagens. Alguns aparelhos já possuem aplicativos capazes de melhorar as imagens é só localizá-los e experimentá-los. Além disso é possível “baixar” gratuitamente aplicativos de tratamento de imagens para smartphones em vários sites.

Enfim, só não cria quem não quer. Aproveite as informações e seu gadget, afinal ele não foi feito para falar mesmo... curtam e compartilhem, agradeço. 








REFLEXÕES - Fotogastronomia: uma tendência atual.

Feijoada, Isaac, 2016.
Embora o termo fotogastronomia não exista no dicionário, é um neologismo que surge para dar conta de uma área crescente no contexto da fotografia. Posso destacar, pelo menos três motivos que me levam a escrever sobre este assunto: primeiro gostar de fotografar, segundo gostar de cozinhar e terceiro porque, durante todo o meu trajeto acadêmico, na maior parte dele, fui professor de fotografia. Por isso me pego sempre pensando nas relações, aplicações, funções e destinos nos quais a fotografia é protagonista ou coadjuvante. Nesse caso com um gostinho especial: o de unir duas coisas que me dão prazer, a fotografia e a culinária.

Outro aspecto motivador é a constatação de que a presença da fotografia culinária  nas mídias de comunicação aumentou substancialmente. A imagem fotográfica culinária tem presença constante em diferentes mídias e suportes como cartazes, revistas e livros ou nos meios digitais fixos e on line, tem crescido dia a dia e inundado o nosso cotidiano enchendo nossos olhes de desejo e de prazer.
Quem não gosta de ver uma bela fotografia de alimentos estimulando-nos ao prazer da boa mesa?



Constatamos também que o universo gastronômico tem apresentado mudanças substanciais na prática profissional, quer seja por meio da qualificação dos chefs internacionais e nacionais e pelas escolas de culinária no Brasil e no exterior, bem como pela crescente valorização do preparo e apresentação dos pratos, produtos e equipamentos nesta área.

Contudo, mesmo que a presença da fotografia de qualidade esteja ganhando espaço nesse meio, também encontramos imagens precárias e sem qualquer cuidado tanto em relação aos aspectos conceituais quanto técnicos. Isso decorre, em parte, da facilidade para tomar e publicar imagens nas redes sociais e, muitos daqueles que tomam essas imagens o fazem sem qualquer informação ou respeito ao alimento ou ao bom senso. Nesse caso, acabam gerando o efeito contrário. Embora a quantidade de imagens seja imensa, ainda temos poucos fotógrafos, ou seja, profissionais preparados para realizá-las com eficiência.



É justamente a facilidade para a documentação de processos e preparos culinários e, sobretudo a veiculação na mídia, tem requerido da fotografia um aperfeiçoamento contínuo em busca do aprimoramento das técnicas de registro e sua difusão, além disso, o aumento da qualidade de profissionais dedicados exclusivamente à elaboração e preparo de alimentos para destinados a se tornarem "modelos" fotográficos também cresceu tanto quanto o desenvolvimento do contexto gastronômico.

Chefs, culinaristas, fotógrafos, estilistas e até cenógrafos passaram a atuar nesse universo munidos de conhecimentos, habilidades e estratégias que vão além do domínio culinário e se especializam no domínio imagético, estético e conceitual produzindo imagens capaz de convencer o mais cético dos mortais a compartilhar um prato ou preparo gastronômico com o prazer de um gourmand.

Fazer fotografia de alimentos é também um desafio na medida em que o que se mostra precisa, acima de tudo, convencer o espectador de que o que se vê é agradável à visão e ao paladar. O problema é que só se tem a imagem, o sabor, gosto, o paladar não entra na jogada, então há um grande problema: como fazer com que a imagem supra a ausência dele?
Aí entra a Fotogastronomia.



Fotografar alimentos, especialmente os já processados, não é fácil. Para fotografar nesta área, não basta conhecer as técnicas fotográficas, é necessário conhecer também as técnicas culinárias, o que requer dos profissionais maior competência e especialização. A veiculação destas imagens, além de serem fixas, não tem como contar com os aromas e sabores típicos dos preparos culinários, nesse caso, é apenas na imagem fotográfica que se concentram os esforços para aumentar a eficiência da informação nesta área.

Muitos dos processos de preparação atuam diretamente sobre a aparência dos alimentos e alteram suas características como coloração, textura, hidratação e outras propriedades que são necessárias ao processamento do alimento, mas produzem efeitos imprevisíveis para a fotografia, logo, boa parte do trabalho do fotógrafo ou do estilista culinário é dedicada à anular ou minimizar os efeitos do processamento e preparo dos alimentos no intuito de dar aos pratos uma aparência mais natural e agradável.



Em primeira e em última instância, o que se espera da fotografia de alimentos é que seja suficientemente estimulante para atrair o olhar e comunicar ao leitor as informações correlacionadas aos alimentos e suas qualidades sensíveis como aparência, preparo, cor, textura, apresentação, iluminação etc.



O mercado de trabalho nesta área compreende um conjunto extenso de clientes com diferentes necessidades, sejam os produtores de alimentos; comerciantes de produtos alimentícios e/ou de equipamento, utensílios e instrumentos culinários; editores, gráficas; empresários da área de hotéis, bares, restaurantes e lanchonetes e categorias similares; chefs, gastronômos, gourmets entre outros.



Ao mesmo tempo, esse mercado tem sido substancialmente reforçado e aprimorado pelo desenvolvimento da tecnologia digital de produção, tratamento e distribuição de imagens. Isso proporciona um crescimento assombroso na quantidade e na disseminação de imagens de alimentos por meio de sites, blogs e demais espaços destinados ou relacionados à culinária no contexto da rede mundial de computadores, cada um de nós em alguns momento se sentiu um produtor ao postar uma imagem dessas em redes sociais. Isso faz com que esse olhar sobre os alimentos seja mais aguçado e também mais exigente, daí a necessidade de aprimoramento contínuo desta área.

Não há dúvida de que a fotografia é, de fato, o recurso mais indicado para dar conta desta crescente necessidade e é sobre ela que recaem as exigências de performances cada vez mais eficientes tanto em relação à documentação quanto à apresentação e difusão do trabalho dos culinaristas.É por meio dela que se constrói a abordagem para mobilizar as pessoas que apreciam a boa mesa cativando-as pela visualidade e, quem sabe, estimulando-as a buscar novas e ricas experiências gastronômicas.

Isto requer maior investimento nas técnicas e estilos na criação do material visual disponibilizado nesta área, o que implica necessariamente no aprimoramento dos profissionais da fotografia e da imagem. Nesse sentido duas tendências surgiram e têm sido muito requisitadas nesse contexto: a do Food Stylist e do Food Photographer.

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https://www.amylevin.co.uk/product/food-photography-styling-workshop-3rd-nov-2018/

Identifico duas grandes tendências estilísticas nesse ramo: uma que busca um olhar mais próximo do efeito de realidade, preciso e técnico que chamo de Editorial e outro, mais expressivo, que valoriza o aspecto plástico, formal e estético que chamo de Natural. O primeiro pode se mostrar como mais objetivo e generalista e o segundo como mais subjetivo e intimista. Percebi isso ao observar as publicações impressas e virtuais de hoje em dia.

Por exemplo: num livro de receitas as fotografias querem, por um lado, dar a ideia de como aquele preparo poderá ficar e, por outro, estimular o leitor para executá-lo senão o livro perde sua finalidade e sentido. Acredito que quanto melhor for a fotografia, mais estimulante será para o leitor. Se a foto de um prato for mal feita, penso que não levará ninguém a tentar realizar aquela receita. É a visualidade que convoca nosso olhar e, por meio dele, estimula o apetite. Pode-se dizer que começamos a comer com os olhos.

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Para atuar nesse contexto o ideal é se preparar profissionalmente. Alguns profissionais experientes têm proposto um ou outro workshop como estratégia para introduzir os interessados nesse campo. Penso que seria também muito interessante contar com disciplinas especializadas, nos cursos de gastronomia, assim teríamos, ao mesmo tempo, maior esmero na elaboração e apresentação de alimentos e também a qualificação da comunicação e difusão da produção culinária resultando em maior visibilidade para os próprios cursos, como também para os profissionais da gastronomia.

Espero que este texto seja um estimulo para olhar esta área com mais prazer, quer como produtores ou... degustadores...
Agradeço o compartilhamento.

REFLEXÕES - Arte e Artesanato: Relações de aproximação e afastamento.

Artesanato é Arte? Quando algo é Arte e quando é Artesanato? Estas são questões que sempre chamam a atenção quando pensamos em Arte Visual.

Quando olhamos para trás, especialmente, para as manifestações artísticas tradicionais, vemos que a maioria delas depende das habilidades psicomotoras como o desenho, a pintura, a modelagem, a escultura, as montagens, as incisões e a gravura entre outras poéticas que posso ter omitido. Constatamos que há a necessidade da manipulação de materiais, instrumentos e ferramentas para a realização destes processos e que, sem isso, as obras não podem ser configuradas, logo, este é um primeiro ponto de contato entre o artesanal e o artístico. No entanto, até que ponto, o aspecto artesanal interfere ou define o processo de criação artística e quanto é importante para ele?

Grande parte das manifestações artísticas humanas dependem de ações corporais e, principalmente, de habilidades no desempenho destas ações. Como exemplo podemos pensar na dança que exige um controle extremo do corpo em movimento. Se olharmos a música instrumental, vemos que um instrumentista só consegue interpretar uma partitura musical se tiver o completo domínio do instrumento, ou seja de suas mãos sobre ele. Obviamente não há como ter o domínio psicomotor sem que haja também domínio cognitivo. Nesse caso, estas duas habilidades são exigidas da arte e do artesanato, como são também exigidas de um cirurgião, de um odontólogo e também de um ourives, de um biólogo e em outras áreas em que habilidades manuais são condições sem as quais uma pessoa não consegue exercer com eficiência as tarefas de sua profissão.

Bem, então dá para perceber que as habilidades manuais são necessárias em muitos campos, inclusive no da arte ou do artesanato. Mas é necessário ainda distinguir arte e artesanato, nesse caso, acredito que seja mais uma questão de função, interesse, finalidade e até de nichos ou segmentos culturais que, de um modo ou de outro, independem de habilidades manuais ou corporais.

Embora a artesania exigida nas primeiras manifestações artísticas fosse muito maior do que a que se exige das manifestações atuais, esta não é a questão principal da Arte Visual contemporânea.
A arte tradicional requeria grandes habilidades dos artistas ou daqueles para os quais delegava a produção, pois, como construtores e imagens e narrativas, acreditava-se que, ao reproduzir as imagens assemelhadas ao mundo natural era um valor e uma qualidade artística. Só a partir do Renascimento que a distinção entre Artesanato e Arte passou a ser considerada como uma distinção importante, pois até então, se entendia os produtores de arte como artesãos especializados.

Há também um fator importante que é considerar a fatura de um objeto como parte do processo criativo. Reconhecer as habilidades técnicas de um artista como um dom ou valor fazia com que aqueles que possuíssem mais habilidade fossem considerados melhores do que aqueles que não as possuíam. As habilidades manuais eram um diferencial importante para a consagração de um artista. Isso foi reforçado também com o Modernismo, só que no sentido oposto, aqueles que explorassem, criassem, pesquisassem, investigassem, inventassem novos procedimentos, materiais, estratégias discursivas e soluções plásticas ou conceituais passaram a ter maior reconhecimento, independente de possuírem grandes habilidades manuais ou artesanais. Contudo, a associação entre habilidades pragmáticas e artesanais ainda eram consideradas pertinentes ao campo da Arte e seus fazeres.

Com o desenvolvimento da industrialização no século XVIII e XIX surge a primeira crise de identidade entre arte e artesanato. Os processos de mecanização industrial começam a reprimir a atividade artesanal, não são mais os artesãos que fazem móveis, utilitários, vestuários e objetos para a decoração, ornamentação. Entende-se que isso leva a uma "desumanização" da produção e a consequente transformação das habilidades dos artesãos e artistas para a simples tarefa de operação de máquinas para a produção em massa. Willian Morris, artista, inspirado no discurso do crítico de arte John Ruskin passa a defender a produção artesanal como fator de qualidade técnica e cultural. Instaura o Movimento Arts & Crafts e funda a Morris, Marshall, Falkner & Co, uma empresa destinada a empregar artistas e artesãos na realização de projetos e produtos. Este movimento também contribuiu para Walter Gropius definir o projeto pedagógico da Escola Bauhaus alemã no século XX, onde a relação entre forma/função/estética se torna uma proposição conceitual, o que acabou sendo a base para a criação do Design como campo de conhecimento, formação e produção vinculado à indústria.

Há dois aspectos que decorrem destas falas: uma é o fazer manual tomado como um fator importante da realização artística em várias áreas e outra é a imposição das tecnologias de produção industrial em massa que suprimem os fazeres manuais. É como se o desenvolvimento tecnológico fosse o único e grande algoz da arte ou da artesania. Para tentar esclarecer melhor isso, volto a problematizar algumas questões apontadas anteriormente quanto a: função, interesse, finalidade, nichos ou segmentos culturais. O mundo muda e a arte como uma manifestação social também muda!

A primeira questão: As funções da Arte ou Artesanato são as mesmas?
Primeiro temos que definir o que se pode entender por Função. Como estamos no contexto da Arte, vamos tomar por referência as Funções da Linguagem de Jakobson que, entre as diferentes funções que identifica, admite a Função Poética, centrada no fazer estético. É assim que entendo a finalidade primeira e fundadora da Arte, da expressão ou manifestação artística: a estética antes de qualquer outra.
Cabe também esclarecer que Estético ou Estética não é sinônimo de Forma ou Plástico ou Cosmético ou qualquer outra interpretação insólita deste termo. Estética é um ramo da filosofia dedicada aos estudos referentes aos princípios e procedimentos poéticos fundadores da criação artística. É um Substantivo e não um Adjetivo. Estética é o que motiva e ampara a criação artística, independente de outras finalidades que venha a cumprir ou realizar no contexto social.
Nesse sentido, embora haja na configuração de várias manifestações artesanais elementos relacionados à habilidades motoras e componentes plásticos e visuais, embora surjam da vernacularidade do contexto do qual resultam, não se pode dizer que a função do Artesanato seja Estética. Embora muitos deles se destinem à ornamentação, decoração e, na maior parte das vezes, ao utilitarismo, não significa que sejam, por definição, Arte.
Obviamente que a restrição aqui colocada tem uma base erudita e condicionada ao saber construído e consolidado no campo da Arte Visual no contexto da tradição ocidental. Por outro lado, se considerarmos a cultura como o campo de todas estas manifestações, inclusive a antropologia e as variações etnográficas e populares estaríamos, nesse caso, considerando que todo fazer manual, industrial ou qualquer outro que surja da cultura humana é Arte, contudo, isso é difícil sustentar.

A segunda: Os interesses da Arte ou do Artesanato são os mesmos?
Pode-se dizer que o principal interesse da Arte é a Expressão, mas não qualquer expressão. Quando alguém manifesta sua indignação por algo que lhe ocorreu, não significa que isto seja expressão artística, embora manifeste seus sentimentos mais sinceros. Entendo que a Manifestação artística se destine a revelar aos outros o caráter estético que motiva e estimula a criação.
Portanto o principal interesse da Arte, a meu ver, é a própria pesquisa. Um artista se dedica a explorar os potenciais expressivos tanto pessoais quanto dos meios, recursos e potencialidades que emergem do processo e das proposições que estabelece como metas para sua criação.
O Artesanato, por outro lado, busca fins quase que exclusivamente pragmáticos. Este pragmatismo se mostra em diferentes dimensões: um diz respeito aos produtos criados dentro da tradição vernacular e com finalidades funcionais como a confecção de objetos e utensílios criados a partir dos materiais disponíveis ou tomados do meio para transformá-los em coisas utilitárias como recipientes, vasos, colheres e outros objetos destinados ao uso; outra dimensão é a ornamental ou decorativa na qual os objetos criados são destinados a enfeitar ambientes; outra ainda, compreende a função simbólica, na qual a criação se destina a produzir artefatos de caráter místico como amuletos, representação de divindades ou entidades religiosas sem fins artísticos propriamente ditos.
Na maioria das vezes, se destinam ao contexto no qual estão inseridos, suas comunidades e ambiente e não ao circuito ou sistema de arte.
Embora, não se possa negar que muitos artistas dependam ou visem o mercado de Arte, tanto por questões de sobrevivência quanto de interesses exclusivamente econômicos, ainda assim há diferenças substanciais em comparação com o campo artesanal, pelo menos a diferença entre o erudito e o popular que orientam um e outro.

A terceira: Os fins de uma e de outro são os mesmo?
Como argumentei até agora, percebe-se que os fins de um e de outra são diferentes. Se para a Arte a questão estética é priorizada sobre a material ou pragmática, pode-se dizer que para o Artesanato, a questão pragmática é muito importante, mesmo porque a maior parte da produção artesanal se encontra nas camadas economicamente mais baixas da sociedade e, em muitos casos, é a única relação que se tem, supostamente, com a "arte". Outras vezes é um meio ou aporte econômico para a renda de muitas famílias.
Obviamente que este tipo de constatação reforça a ingerência econômica do poder instituído pelo capitalismo que manipula a produção e circulação de bens elevando ou enaltecendo uns em detrimento de outros.
Pode-se dizer que há muito interesse comercial sobre a Arte na medida em que uma grande parte dos ativos financeiros de grandes empresas e capitalistas passam por esta ponte. A questão é que à elite econômica mundial não interessam as manifestações populares pois não contam como o apoio e a difusão da mídia como os artistas adotados pelo mercado.
Embora o mercado faça parte do sistema cultural e econômico da sociedade a Arte, como parte dele, não está isento de interferências e interesses. Contudo, não define que a produção artística seja única e exclusivamente destinada ao mercado. Há uma certa expectativa para que tal produção  seja diversificada o suficiente para atender tanto a demanda cultural quanto de mercado.

A quarta e, por enquanto, última: em que nichos ou segmentos culturais ela e ele atuam?
Seguindo as linhas de raciocínio que apresentei até agora, posso dizer que há diferentes nichos ou segmentos culturais nos quais tanto a Arte quanto o Artesanato encontram respaldo social.
O Sistema de Arte é o contexto do qual fazem parte tanto os produtores, difusores, estudiosos, colecionadores, instituições artísticas como museus e comerciais como galerias, marchands e leiloeiros. Embora não existam regras para a constituição deste Sistema, há condutas e comportamentos que, ao longo do tempo, se consolidaram e estruturam os modos de produzir e consumir Arte na sociedade. Por outro lado, não há nada disso destinado ao contexto artesanal,
Embora existam programas de pesquisa institucionais dedicados tanto aos estudos da Arte quanto do Artesanato. Existem também institutos e museus para uma e para outro, assim como mercado para uma e para outra.
Não considero ser relevante estabelecer distinções entre uma e outro, já que tanto uma quanto outro, fazem parte do mesmo contexto cultural no qual vivemos com todas as possibilidades e potenciais para que ocorram diferentes manifestações, independente do nichos ou segmentos nos quais se encaixem ou para os quais se destinem.

Acima, uma imagem típica do artesanato nordestino com temática regionalista. http://istoecampanha.blogspot.com.br
Observe a imagem acima: nela é possível exemplificar o que disse à respeito do Artesanato até aqui. Há, sem dúvida, um domínio técnico sobre instrumentos e materiais, embora dedicado à reprodução em série de objetos que se destinam ao mercado do que se pode chamar, no senso comum de "Arte Popular". Na minha opinião Arte Popular existe e condiz com os mesmos critérios da Arte Erudita, apenas que as orientações estéticas, temáticas e poéticas se diferenciam uma da outra, mas ambas se diferenciam em relação ao Artesanato.

Para deixar clara a diferença entre o Artesanal e a Arte, observe abaixo a obra de Jackson Pollock:



Pollock desenvolveu um procedimento que revolucionou o modo de pintar: ao invés de aplicar a tinta na superfície da tela como comumente se fazia, passa a produzir suas obras por meio de "respingamentos", projetando, por meio de gestos, a tinta colhida pelo pincel sobre a superfície da tela, processo chamado de Action Painting. Nesse caso, a habilidade de pintar, como se entendia anteriormente, assumiu um outro patamar onde a questão Performática e Gestual se torna o meio e modo de fazer e reduz a, praticamente, zero, a habilidade de manipular pincéis,
Hoje em dia o que se propõe no contexto da Arte é que o observador, apreciador crie um diálogo com a Obra de Arte por meio de reflexões que, neste caso, chamamos de Estética. Espera-se motivá-lo para analisar os processos constitutivos e propositivos que orientaram o autor e como, ele enquanto expectador, possa tirar conclusões próprias a partir dali.


Auto Retrato de Chuck Close, 1968

O que se vê aqui é uma pintura! Incrível não? Até parece uma fotografia!
A proposição de Close se enquadra dentro do Hiper-realismo, tendência estética que surgiu no contexto da Pós-Modernidade, a partir da década de 1960.
Os artista dedicados a este processo se propunham ao desenvolvimento de habilidades psicomotoras extremas com o fim de "Enganar a Vista". Queriam criar a ilusão de que o expectador estivesse diante de uma fotografia mesmo. Recorriam, inclusive, aos efeitos óticos que as lentes fotográficas produzem. Neste sentido pode-se dizer também que tinham um alto domínio técnico, uma excelente "artesania". No entanto, devo dizer que não era a habilidade manual que estava em jogo, mas sim a ilusão, o efeito de realidade como elemento de significação.

Entretanto, não é apenas a técnica ou a habilidade em realizar uma tarefa que qualifica um artista ou um artesão.

Peça de artesanato indígena onde a temática e o material se origina no seu meio ambiente.

Na imagem acima, vemos a representação de um conjunto de onças, supostamente mãe e filhotes. Percebe-se que a pessoa que a realizou detém os domínios técnicos necessários para lidar com o material e com as ferramentas exigidas para isto. Quero dizer que, tanto para a produção artística quanto para a produção artesanal, há dependência de diferentes habilidades, sejam elas cognitivas ou psicomotoras. As escolhas por quais habilidades serão aprendidas, dominadas e desenvolvidas para a execução de suas obras, dependem dos produtores. Para criar, para manifestar-se dentro de uma poética ou para construir algo dentro de uma técnica há que se aprimorar certos domínios. Neste sentido tanto a Arte quanto o Artesanato se parecem. Mas como dissemos os fins são diferentes.

O artesão não tem qualquer preocupação em propor maiores reflexões em torno de seu trabalho, senão ofertar um produto que ele deve saber fazer muito bem. Normalmente o que ele faz é desenvolver suas habilidades manuais para a realização de um produto e investir na sua reprodução em maior escala e, como não é industrial, a manutenção de sua atividade depende em grande parte de seu fazer individual, o que exige dele apenas habilidades pragmáticas, pouco reflexivas. Para ele, basta fazer o que se propõe a realizar e isto é suficiente para mantê-lo ativo no exercício de seu ofício em relação ao seu público, pois para ele não há cobranças de caráter crítico, conceitual ou estético.

Pintura artesanal publicada no rj.quebarato.com.br,

Para o artesão basta agradar ou enfeitar algo que sua meta já foi completamente cumprida. Seus trabalhos não são submetidos a qualquer tipo de julgamento, sejam técnicos ou estéticos.

Mas, ao artista não basta fazer algo bem, é necessário ir além, é preciso promover a interação entre a obra e o apreciador, estimular o diálogo, a reflexão crítica sobre o pensamento estético e aprofundar os conceitos que amparam a realização de seu trabalho poético. Em suma, enquanto o trabalho do artesão é essencialmente prático e objetivo, o do artista é filosófico, intelectual e, em boa parte, subjetivo.




A obra de Waltércio Caldas, "A Emoção Estética", acima, revela a orientação conceitual do artista dedicado a criar novos estímulos estéticos, por meio de diferentes tipos de materiais e propostas. O Conceitualismo não depende, necessariamente, de domínio psicomotor as obras se caracterizam por  ideias, conceitos e proposições que envolvem, principalmente, reflexão estética.
Esta imagem faz parte de seu livro: Manual de Ciência Popular, no qual produz fotografias a partir da combinação de diferentes elementos e objetos. Ampara tais imagens por meio de textos que perpassam reflexões estéticas, filosóficas e irônicas.

Como Funciona a Máquina Fotográfica, Waltércio Caldas, Manual da Ciência Popular.

Como vemos, estes dois universos podem ser parecidos, mas são extremamente distintos, cada um no seu contexto. A arte, dita erudita, é um campo de experimentação e pesquisa especializada que opera num sistema complexo e sofisticado, dependente da intermediação de estudiosos e críticos para atingir a plenitude de suas proposições enquanto o artesanato opera sem exigências conceituais e estéticas. Enfim, quando pensamos nestes dois contextos, fazemos inferências e exercitamos nosso conhecimento sobre arte e cultura, boas reflexões....
Curtam e compartilhem, agradeço.

EM PROCESSO - Olá, eu me chamo Isaac, sou Carvólatra...

Desenho à carvão, Isaac.
Como já devem ter visto meus trabalhos plásticos têm um componente gestual expressivo recorrente que é a grafia, que chamo de comportamento "Desenhatório", uma espécie de tendência para o Desenho. Para que ele se realize há a necessidade da utilização de meios, instrumentos e materiais que produzam e mantenham rastros, marcas e registros. Vários instrumentos e materiais foram utilizados pelos artistas e criadores ao longo do tempo para plasmarem imagens em diferentes superfícies.

Na pré-história uma das atitudes que nos diferenciou das demais espécies foi a capacidade de abstrair e criar imagens e, um dos primeiros materiais usados para isto foi o carvão.
Confesso que tenho grande admiração pelo carvão devido às imensas possibilidades de uso e efeitos possíveis em sua aplicação é ai que entra a predileção por ele que batizei de Carvolatria, ou seja, a fraqueza do Carvólatra, a adicção do cara que usa carvão para criar imagens compulsivamente... Brincadeiras à parte, vamos ao processo.

Entre as primeiras imagens criadas na pré-história estão os Desenhos. Alguns feitos por meio de incisão sobre rochas, outros feitos com rastros de minerais e outros realizados com carvão mesmo. A obtenção deste material resultava da apropriação dos resíduos da queima acidental ou provocada da madeira ou de outras substâncias carbonizáveis. Não se pode dizer que o único uso deste material fosse gráfico, há informações que dão conta do seu uso curativo no preparo de unguentos, de pastas para uso "medicinal" em várias culturas, hoje em dia o é usado para purificação e contra intoxicações, logo, sua utilização é ampla, desde aplicações como "detox" graças à sua capacidade de absorção de toxinas do ar e em contextos orgânicos como carvão ativado para filtros biológicos, até para fazer o churrasco do fim de semana, então: Carvão é tudo de bom!

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Incisão Rupestre pré-histórica: desenho cavado na rocha, encontrado no Marrocos.
A caverna Chauvet Pont d´Arc na França descoberta em 1994 detém um dos maiores conjuntos de imagens produzidas com carvão há 35.000 anos.

Caverna Chauvet Pont d'Arc, desenhos feitos à carvão na pré-história.
Grafias como linhas, manchas, sombras, nuances e adensamentos são obtidos com o simples carvão.
O Carvão Vegetal é obtido a partir da queima ou carbonização da madeira cujo resultado são fragmentos porosos e negros com maior ou menor rigidez. Nem todo carvão obtido da queima de madeira é adequado para uso artístico, embora todos possam ser usados para isto há alguns mais eficientes para isto, ou seja, obtidos de vegetais mais porosos. O carvão de hastes de videira, de vime, de arbustos ou árvores frutíferas em geral são mais adequados. Assim podemos obter nosso próprio carvão, mas um detalhe importante é que, preferencialmente, esse carvão não pode ser sempre obtido da queima direta, mas indireta, em contêiners que o queimam sem deixá-los rígidos.

O que interessa é o seu uso plástico. Embora todo fragmento carbonizado possa deixar rastros e marcas em superfícies, os que servem melhor ao desenho ou à expressão gráfica devem apresentar certas características: maciez, porosidade, homogeneidade e consistência, então há Carvões e carvões. Há momentos em que o processo criativo busca traços consistentes e muito negros e outros em que se quer traços leves e transparentes promovendo variações de luminosidade, textura e cobertura da superfície. Observe os detalhes abaixo:


Nos detalhes mostram uma aproximação do mesmo desenho à carvão de um de meus trabalhos, em que as texturas podem ser observadas em suas nuances.

Mesmo que seja possível apropriar-se de resíduos carbonizados de vegetais para desenhar, há uma grande oferta de Carvão nas lojas de materiais artísticos. A indústria de material artístico, atenta ao potencial expressivo do carvão, foi esperta o suficiente para identificar alguns tipos de vegetais que atendiam melhor aos procedimentos artísticos. A videira, o salgueiro e o vime entre outros que passaram a ser colhidos e mesmo produzidos para este fim. As hastes destes vegetais são carbonizadas, selecionadas e embaladas para comercialização. Para aproveitar também o subproduto carbonizado, passaram a prensá-lo para produzir barras com diferentes densidades: mais densas ou mais suaves. Usaram também para fazer minas para lápis. Enfim, hoje em dia há diferentes recursos nos quais o carvão é utilizado como matéria prima para a produção de material de qualidade destinado à criação e à Arte. Contudo ainda é possível recorrer ao carvão de churrasco para experimentar alguns efeitos expressivos, então temos carvão para toda obra.

Como há variação de carvões, variam também os efeitos obtidos por cada um deles, como também variam as necessidades e características plásticas impostas pelos artistas aos seus trabalhos, quer seja por meio do tipo de carvão ou do suporte utilizado. Nesse contexto estas variações visuais se tornam os elementos de sentido que constroem a significação. Ao observar uma imagem produzida com carvão, não é apenas a figuração, o tema, o assunto que se deve levar em conta, mas também todos os efeitos e condicionantes plásticas como a textura, gradação tonal e recursos técnicos aplicados durante o processo de execução da obra. Como na apreciação de toda Obra de Arte, é necessário levar em conta tanto os aspectos conceituais quanto os aspectos técnicos.

Desenho à carvão, Isaac.
Em 1530, Michelangelo usa o carvão para desenhar várias imagens nas paredes de uma pequena sala sob a Capela Medici da Basílica de S. Lorenzo, onde havia se abrigado de uma das batalhas entre as famílias dominantes, daquele período. São estudos de figuras que realizou durante os meses que permaneceu escondido. Um dos usos comuns do carvão era a realização de estudos e esboços para obras definitivas, como na pintura.


Da Vinci usa o carvão para produzir estudos de: A Virgem e o Menino com Santa Ana e São João Batista, 1499-1500, no qual faz furos milimétricos para transferir a imagem para o suporte definitivo por meio de pó de carvão, técnica comum na época.


Outra técnica utilizada era desenhar à carvão numa superfície de papel, por exemplo, e depois pressionar este desenho sobre o local onde seria produzida a imagem definitiva, uma cópia de contato. Vários procedimentos, fossem preparatórios, parciais ou definitivos foram desenvolvidos a partir do uso do carvão. O uso mais comum era o de traçar esboços sobre telas antes da pintura para delimitar áreas ou a própria imagem que, pela fragilidade do material, simplesmente desapareceria sob a pintura.
No entanto, esse era o problema que todo desenhista enfrentava com o carvão: Como fazer com que um material, quase volátil permanecesse numa superfície?
Se a superfície é porosa, o carvão a revela, expõe, explicita e faz com que sua textura seja valorizada e se torna também elemento de significação neste processo, mas também o mantêm frágil: um pó que pode ser retirado até pelo vento...

Os primeiros recursos que surgiram e preservaram o material foram as gorduras orgânicas ou resinas vegetais, a mistura do carvão com estes aglutinantes ou amalgamantes, possibilitaram a manutenção por mais tempo nas superfícies ou suportes. Era o recurso dos primeiros seres humanos nas cavernas nas quais se abrigavam.
Mais tarde os artistas passaram a fixar tais imagens com cola, o processo consistia em preparar a superfície com cola liquida, deixar secar e desenhar por cima. Terminado o desenho o suporte era exposto ao vapor para que a cola derretesse e o carvão fosse incorporado a ela.
Outro processo era o de mergulhar as hastes de carvão em óleo ou resina fazendo com que aderisse melhor sobre a superfície, o que também a manchava e não produzia um bom acabamento.

Embora pouco eficiente era o que podia ser feito, mais tarde, graças ao desenvolvimento de novos vernizes e de novos processos de aplicação foi possível borrifar verniz sobre a superfície desenhada sem risco de alterar o desenho. O surgimento dos tubos de verniz comprimido, como sprays, possibilitaram novas variações como acabamento fosco ou brilhante, com ou sem filtros Ultra Violeta. Assim foi possível intensificar o uso das técnicas à carvão sem correr os riscos que os artistas do passado enfrentaram.

Abaixo mais dois detalhes de desenhos meus para ilustrar seus efeitos, tanto de imposição de traços, quanto da retirada por apagamento. O branco surge do suporte ou quando se "apaga" um traço ou se constroem outros traços com borracha.




Hoje em dia é possível retomar com mais eficiência os processos de desenho à Carvão preservando quase que integralmente os efeitos plástico/visuais, como as texturas e variações tonais, mantendo a essência poética destes procedimentos, assim surgiram os Carvólatras... que, como eu, investem na exploração deste recurso atávico, ancestral, histórico, rico e atual.


Sugiro que experimente, curta, enfim, conhecimento é pra compartilhar!

REFLEXÕES - Professor: um personagem importante...



Quem não teve uma professora ou professor que marcou sua memória?

Todos aqueles que tiveram a oportunidade de submeter-se ao ensino formal, em algum momento dessa trajetória, encontraram pessoas que reuniram conhecimento, conduta e disposição para exemplificar o melhor do ser humano e, naquele momento, se tornaram exemplos marcantes para muitos em suas carreiras e posturas. Por isso, acredito, que uma data só não baste como homenagem a essas personagens, quase anônimas, que ocuparam algum tempo de nossas vidas, mas que não nos deixaram até hoje.

Dia 15 de outubro é a data destinada a comemorar o “Dia do Professor”. Para muitos, apenas mais um feriado escolar, para outros um Marco. O primeiro marco foi a criação do Ensino Elementar no Brasil, lei criada pelo imperador D. Pedro I, promulgada em 1827 em 15 de outubro, dia dedicado a educadora Santa Tereza D´Avilla. Assim foi implantado o ensino oficial no Brasil. Em todas as cidades do país foram criadas as Escolas de Primeiras Letras, sem dúvida: um marco.

O segundo marco foi a reunião de alguns professores do então Ginásio Caetano de Campos, em S. Paulo que organizaram, em 1947, um desfile festivo para comemorar a data, aproveitando o único período de recesso no longo segundo semestre do ano, entre o dia primeiro e quinze de outubro. O evento acabou se repetindo nos próximos anos como um momento de congraçamento entre professores, estudantes e familiares.

Um novo marco foi o reconhecimento da data por meio do Decreto Federal no. 52.682 de 1963 que oficializa este dia no calendário comemorativo nacional. Na América Latina o dia é comemorado em 11 de setembro e a UNESCO define, em 1994, a data de 5 de outubro como dia internacional.

Dados relativos às efemérides são comuns em todos os países que, em momentos de reflexão, contemplação ou pena resolvem homenagear seus marcos históricos, seus heróis e mártires. A questão que resta é que, nem sempre, o significado original é lembrado, tampouco sua importância. Que falta de memória! Assim, uma data relevante se torna apenas uma marquinha vermelha na grade do calendário.

Se não bastasse a perda de memória, somos vítimas de maiores perdas como o próprio objetivo da Educação. No decreto imperial o objetivo era fazer com que as pessoas aprendessem a aprender, tivessem condições básicas para enfrentar o conhecimento e dele se apropriar. Esta é a principal meta do ensino fundamental que, até hoje, orienta as propostas pedagógicas. O problema é que nos “esquecemos” de como fazer isso. O Ensino Fundamental e Médio ficou relegado a sua própria sorte. Muitas escolas oficiais não possuem as condições e os requisitos mínimos previstos pelo Imperador para implantação do ensino oficial no país.

Parte disso corresponde à crescente “comoditização” do país por meio da exploração desenfreada das reservas minerais, ambientais por meio do extrativismo intenso, da agricultura predatória e de outras estratégias de arrefecimento de ânimos e vontades transformou a escola num não-lugar onde o professor não consegue ensinar e o aluno não consegue aprender.

Sou Professor e esse é mais um texto redundante, mais um lamento inaudível e inócuo, não sobre o Dia do Professor, mas sobre as condições de indigência a que a Educação nacional vem sendo submetida. Enfim, é mais uma tentativa, entre milhares, de chamar a atenção para a importância da Educação. Nesse momento me refiro a Educação como o campo no qual atuo como profissional e que defendo como estratégia para o desenvolvimento do conhecimento e crescimento individual e social. Pensar em Educação contempla desde aquela mais simples, afetiva e efetiva que se inicia junto aos familiares que nos dão as primeiras lições de vida mas que não bastam nem são suficientes para nossa sobrevivência social, ai entra a Escola, o ambiente onde serão aprimorados os comportamentos básicos, iniciados e depois desenvolvidos, em diferentes níveis, para domínio dos conhecimentos formais sobre o mundo e a ciência. É lógico que o Ensino faz parte desse processo, mas não basta. O Ensino -e a Aprendizagem seu resultado- como algo mais objetivo e destinado a um fim mais perceptível e verificável, não é suficiente para constituir uma pessoa plena de suas idiossincrasias.
Essa é a falácia deletéria mais praticada pelos “pretensos educadores”, ou seja, fazer a sociedade ignorar a falência da estrutura familiar e social e ainda acreditar que instruir, informar ou arrolar e disponibilizar um conjunto de dados seja suficiente para preparar alguém para ser “gente”. Assim surgem as “fabricas de diplomas” que vendem títulos à granel iludindo o “consumidor” que acredita tomar posse do conhecimento e assim ascender intelectual e economicamente na sociedade. Ledo engano!

O conhecimento pasteurizado e distribuído por instituições mercantis apenas abasta mais e mais seus gestores, empreendedores e associados, deixando seus “clientes” com um canudo na mão, uma dívida no banco e a desilusão no horizonte... Pena...

Sínteses como esta são fáceis de fazer e fáceis de desfazer ou ignorar... mesmo assim acredito que se em cada data recorrêssemos à nossa memória para aquecer as lembranças ou simplesmente não esquecer de quem já fomos, seria um modo de não perder o foco ou o rumo e, no mínimo, um ato de bondade e reconhecimento para todos aqueles que se dedicaram em um momento ou outro para que a humanidade ficasse um pouco melhor...

Agradeço a leitura e o compartilhamento, obrigado.

REFLEXÕES - Imagem e Arte: aproximações e afastamentos.


Meu mantra: "Imagem é uma configuração visual geradora de sentido". Este aforismo condensa numa frase o que, a meu ver, é a imagem e o utilizo como apoio para discorrer sobre ela e entendê-la melhor.
Grande parte das Poéticas em Artes Visuais se realiza por meio de imagens, contudo não significa que toda imagem seja Arte. Pode-se dizer que a aproximação entre imagem e Arte começou com a pré-história.

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Imagens da pré-história, Caverna de Altamira. Espanha.
Olhando para a aurora da humanidade vemos que foram justamente as imagens que constituíram as primeiras manifestações formais do ser humano e que, por sorte, chegaram até hoje. Desenhos, pinturas, incisões, modelagens, esculturas e construções fizeram parte da cultura humana desde o princípio.
Por isso se acredita que as imagens surgiram ao mesmo tempo que a Arte ou foi o contrário? Ao chamar àquelas primeiras imagens de Arte criou-se uma relação ambígua entre imagem e Arte e levantou uma questão importante: Fazer imagem já é, por princípio, um ato ou conduta artística ou para que uma imagem seja considerada Arte deve ter características ou propriedades específicas? Aqui reside a questão da aproximação e do afastamento entre estas duas instâncias.

A caverna de Altamira, na Espanha, é descoberta em 1868, ou seja, "oficialmente" só se descobre que o ser humano realizava imagens desde a pré-história a partir do século XIX, portanto, até então o que se conhecia da produção imagética eram aquelas realizadas a partir das civilizações da Antiguidade. Assim foi necessário retroagir o conhecimento das imagens de mais ou menos 10.000 para 40.000 anos e pior, como entender as imagens realizadas em períodos tão distantes e sem nenhuma pista?

Para melhor entender isso é só lembrar que, aos olhos do século XIX, a Arte Visual era associada às habilidades motoras. O artista era aquele que tinha o dom ou a capacidade de converter coisas, circunstâncias e cenas do mundo em imagens. Assim as imagens narravam, informavam, documentavam, representavam coisas do mundo. Grande parte da produção de imagens dependia das habilidades dos artistas, basta lembrar que o surgimento da fotografia só ocorre na segunda década do século XIX com um meio de "reprodução" e só no final dele é que se torna um meio "alternativo" para a "produção" de imagens.

Neste linha de raciocínio é admissível que as imagens pré-históricas, ao serem descobertas, fossem admitidas como artísticas. Me parece ter sido esta a primeira, mais plausível ou mais adequada hipótese para justificar sua existência naquele momento, só mais tarde foram aventadas outras possibilidades entendendo-as sob um viés mais antropológico vinculando-as às finalidades rituais, místicas e simbólicos. Nesse sentido, chamar de Arte àquelas imagens foi mais uma questão de reconhecimento cultural do que estético, no entanto, dada às suas características plásticas, não há como negar a presença de componentes estéticos.

Contudo não parece ser razoável pensar que o conceito de criação/apreciação estética amparasse ou mobilizasse a expressão naquele momento. Não se sabe nem mesmo o gênero de quem as realizou, nada impede de acreditar que pudessem ter sido realizadas por mulheres. É possível até justificar isso considerando que, ao cuidar da prole, no abrigo das cavernas sob as intempéries, estivessem mais presentes e disponíveis para realização daquelas imagens do que os homens que, supostamente, estariam fora e dedicados a coleta e à caça.

Os elementos visuais que orientam a estética plástica e sustentam até hoje a expressão nas manifestações da Arte Visual já estavam presentes naquele momento, sabe-se que não é possível atestar ou confirmar que aquelas obras tivessem apenas finalidade  artística, mesmo porque as concepções estéticas e conceituais que fundamentam o que se passou a considera Arte só se consolidaram, de fato, há bem pouco tempo. Somente a partir da Idade Moderna, com o Renascimento e as Academias de Arte, que os valores artísticos passaram a ser reconhecidos como distintos dos fazeres técnicos e artesanais que dominaram por muito tempo a produção de imagens.

Se num primeiro momento as imagens atendiam às necessidades rituais e mágicas, aos poucos foram sendo usadas para manifestar o poder dominante na sociedade, fosse por meio de sua presença nos palácios, templos e túmulos, ornamentando-os ao gosto e interesse de seus governantes, enaltecendo seu feitos e conquistas. Deixaram de ser feitas para dialogar com o sobrenatural e encantar os olhos dos deuses, mas para os olhos humanos e, principalmente, informar as conquistas e a força do poder, estabelecendo distinções entre opressores e oprimidos. Os combates, as guerras, a dominação se torna um tema comum e explícito nas imagens desde a antiguidade.

Estela de la victoria del rey Naram-Sin, hecha en piedra rosa. Los cuernos indican su paso a la divinidad.
Detalhe da estela de Naran-Sin, rei acadiano, cuja peça entalhada em arenito rosa, datada de 2.500 a.C., narra sua vitória sobre os inimigos.
Esse sistema narrativo está para a Arte assim como a propaganda está para a comunicação social. 
Registrar e difundir informações não garante conteúdos artísticos ou estéticos, apenas se apropria deles e lhes dá outro destino ou função social. Usando este raciocínio, é o mesmo que entender as imagens produzidas contemporaneamente nas mídias de comunicação social como expressão artística e não como meios de comunicação e estas imagens, são Arte?

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O Massacre de Quios, Eugene Delacroix, 1823. Em 1822, os gregos da ilha de Qios são mortos pelos turcos na Guerra pela independência da Grécia. Delacroix resolve tratar desse assunto  e fazer dele um alerta contra este tipo de atrocidade.
Delacroix usa de suas habilidades de artista para plasmar uma cena em que os vencidos, prostrados, revelam a barbárie humana. A temática social de índole ideológica é construída mediante os procedimentos da estética Neoclássica que dominava os primeiros anos do século XIX.

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Soldado ferido mostrado por Roger Fenton, realizada em 1856 durante a Guerra da Criméia. Uma das primeiras imagens fotográficas tomadas em ambiente de conflito. 

Com o advento da Fotografia, a produção de imagens deixa de ser exclusivamente realizada pelas mãos humanas e passam a ser produzidas e reproduzidas por aparelhos e máquinas. Neste sentido podem ser tomadas como registros de fatos e eventos, tornando-se documentos, testemunhas visuais incontestáveis de acontecimentos. Com isto surge outro impasse: a imagem fotográfica é Arte ou Documento?

Polêmica à parte, a produção de imagens por meio de aparelhos e sua reprodução e distribuição impressa assume uma dimensão tão grande e intensa constituindo sistemas de informação e narrativos capazes de comunicar dados e interferir nos percursos culturais chegando a ser estudadas como um fenômeno social na Cultura Visual. Simultaneamente as imagens produzidas por esse sistema passam a ser usadas na publicidade tornado-se uma presença constante no mundo atual, servindo até como estratégia  de criação artística na estética da Pop Arte e da Arte Conceitual e pós-moderna.


A obra "Retroativo I, de 1964, de Robert Rauschenberg, construída a partir da colagem de várias fotografias publicadas na época reverte o processo de informação para o processo estético-criativo.
A partir das constatações aqui arroladas é possível admitir que uma imagem pode cumprir várias funções simultaneamente sem que uma esvazie outra. Pode ser, ao mesmo tempo, Arte e informação, a questão é identificar quando isso acontece ou como estas interposições ou interpolações são realizadas intensificando ou diversificando funções estéticas ou pragmáticas.

Um bom exemplo disso são as fotografias publicitárias ou de moda, que operam qualidades e valores plásticos ou visuais com igual ou maior desenvoltura do que um artista, realizando obras dignas da mais sofisticada poética artística, no entanto, por mais que tais imagens igualem ou superem as qualidades plásticas ou visuais da produção artística, isso não é, por si só, uma garantia de “artisticidade”, embora tenham potencial para isto.

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Foto de Man Ray, de 1936 para a revista de moda Vogue, reúne aspectos estéticos e publicitários em abordagem inovadora por meio da luz e composição.

Ao fim e ao cabo, o que define se uma imagem é uma Obra de arte é, sem dúvida, sua destinação estética. As Obras de Arte visam relações de caráter conceitual e estético, visam a apreciação, fruição, como coisa da Arte e não só da mídia de informação. Uma construção artística não se destina, por princípio, a nenhuma função pragmática ou técnica, portanto, não se desvia ou ignora sua vocação original que é, em última instância a expressão artística.

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REFLEXÕES - É possível definir Arte?

Provavelmente todos tenham um entendimento do que é Arte.
O historiador, artista, crítico e professor Frederico Moraes publicou em 1998, pela editora Record, um livro intitulado: "Arte é o que eu e você chamamos Arte: 801 definições sobre Arte e o Sistema de Arte", contudo, nem todas as "definições" que ele arrola são embasadas conceitualmente ou no conhecimento da área, mas também em compreensões paralelas, informais ou parciais e mesmo conflitantes, seja de filósofos, artistas, cientistas, críticos, jornalistas entre outras pessoas que, em um momento ou outro, se sentiram "iluminadas" e deram um pitaco nesta área. O próprio autor é "autodidata" em Arte, como se diz: formado na vida... Embora com uma trajetória invejável de artista crítica, escrita e curadoria não frequentou os bancos escolares da formação artística o que não o impediu de realizar uma produção de excelente nível e qualidade neste contexto.

Identificar, distinguir, interpretar, entender O que é Arte, tem sido uma questão recorrente tanto no meio acadêmico quanto no senso comum. O meio acadêmico, como responsável pelo balizamento do conhecimento como um todo, se esmera e se aprofunda na compreensão e distinção do saber em todas as áreas, isto não é diferente no campo da Arte. Contudo, os esforços que têm sido dedicados a ela não tem surtido o efeito necessário e esperado na sociedade.

Pode-se justificar tal entendimento ao levar em conta que entre a pesquisa, o desenvolvimento do conhecimento científico praticado nas instituições e Ensino Superior, não atinge a sociedade na mesma proporção de suas conquistas, ou seja, a educação proporcionada à sociedade não consegue acompanhar ou atualizar o que se sabe no mesmo ritmo do desenvolvimento, assim, há um constante atraso, um "delay" entre a pesquisa e sua aplicação e "feedback", cujo retorno é lento ou tardio.

O que dizer da dificuldade em alcançar uma formação geral que, ao mesmo tempo que medie o domínio de conhecimentos básicos também prepare a sociedade para a compreensão da cultura como um todo. Assim, o que se sabe sobre Arte, na maior parte das vezes, é obtido parcial ou informalmente e, em geral, do senso comum.
O ser humano, por natureza, tem a necessidade de compreender as coisas, independente de estar no mundo natural ou na cultura. Esta necessidade leva a buscar explicações, justificativas e isto, consequentemente, gera Conhecimento. Organizar, sistematizar o conhecimento é uma tarefa contínua e dinâmica que depende de revisões contínuas, reavaliando, confrontando e estabelecendo novos princípios e valores.

No campo da Arte, por sua dinâmica própria, é praticamente impossível alcançar uma "definição" "definitiva" do que ela seja. Muitos artistas, teóricos, estetas e filósofos, escritores, jornalistas e críticos, vez ou outra, sentiram tentados a fazer isso. Digo tentados, pois definir soa como algo finalizado, acabado e que não precisa ou não necessita mudar, mas as coisas não são assim. Definir é uma responsabilidade muito grande, requer conhecimento, visão geral e específica e, principalmente, a compreensão de que o que se define não está sujeito a mudanças, que seja uma constante imutável e permanente. Se levarmos isso ao "pé da letra" nem mesmo a física, que se dedica aos estudos das ciências naturais, tem toda a certeza de que o que sabe hoje não mudará amanhã. O que dizer então da Arte? Especialmente da Arte Visual, campo em que atuo?

A Arte comporta diferentes olhares e leituras, portanto, diferentes modos de vê-la e pensa-la em cada tempo e lugar, em cada civilização, em cada sociedade, em cada cultura e mesmo cada indivíduo que a pense acaba assumindo uma versão dela. Resta então tentar encontrar algumas características que lhe sejam comuns e, por meio delas, identificar o que pode ser e o que não pode ser entendido como Arte num dado período e contexto cultural.

Um primeiro aspecto que pode ser levado em consideração é que a Arte, enquanto manifestação humana, sempre ocorreu em qualquer tempo ou lugar. Independente dos modos ou fins para o quais foram feitas, todas as civilizações produziram Obras de Arte e, consequentemente, ela sempre foi um dos elementos de identidade cultural e ajudou a distinguir uma sociedade de outra ou mesmo os diferentes estágios em que uma sociedade estava.

Um segundo aspecto é lembrar que as funções que ela exerce em cada momento social são diferentes de um para outro. Se para o ser humano pré-histórico a arte serviu para evocar vibrações positivas para empreender e propiciar a caça ou simplesmente para ter algo para seu deleite ou apreciação, para o ser humano contemporâneo não funciona assim, pode-se dizer que serve tanto para posicionar-se estética ou politicamente na sociedade quanto para decorar, ornamentar um ambiente ou configurar um produto. Diversos usos e funções foram acoplados ou dispensados da produção artística ao longo dos séculos, logo, não falamos de uma coisas só, mas de muitas coisas e juntar tudo num só "pacote", é complicado.

Um terceiro aspecto, é que os modos de fazê-la e os locais em que surgia também se distinguiam entres essas sociedades. Na pré-história ocupava as paredes das cavernas, na antiguidade as paredes dos palácios, templos e túmulos. Na Idade Média as paredes das igrejas, na Idade Moderna adquiriu "portabilidade" por meio da chamada Pintura de Cavalete, hoje em dia nem as paredes a suportam... ocupam o ambiente, o espaço público e a face da terra...

Podemos então dizer que a arte assume em cada momento e em cada lugar, um modo de existência que não se coaduna necessariamente com outro, logo, é impossível esperar que uma simples definição dê conta de toda sua complexidade. É possível que a Arte seja uma das maneiras que a humanidade tem de se manifestar seja enquanto sociedade ou como indivíduo e, por meio dela, é possível entender melhor esta sociedade pelo simples prazer ou fato de saber "onde se está pisando", quem somos aqui e agora. Esse poderia ser então o primeiro elemento para sua compreensão e entendimento: o fato de ser uma Manifestação presente, recorrente e que pertence à humanidade.

Entretanto, existem manifestações que expressam as mais diversas índoles humanas, como podemos então, diferenciar aquelas chamamos de artísticas daquelas que não se chama assim? Por exemplo, um bebê se manifesta quando chora, provocando uma reação na sua mãe que a leva a tomar alguma atitude em relação a ele dependendo do tipo de choro que identifica: pode lhe oferecer alimento, carinho, cuidados terapêuticos, enfim o choro tem significações e sentido que podem ser interpretados. Uma pessoa pode manifestar sua indignidade em relação a algo e esbravejar, entretanto, tanto esta manifestação quanto o choro da criança, expressam sentimentos e intenções que são reais, mas são Arte?

Pode-se dizer que não é este tipo de expressão que interessa no contexto da Arte. Para facilitar o entendimento do que tento dizer é só imaginar situações semelhantes a essas numa peça teatral ou num filme: Uma mãe, ao ouvir o choro do filho, corre até ele para verificar sua segurança, ao tomá-lo em seus braços percebe sua fome e o alimenta e embala. Nada mais sublime para significar a atenção e o carinho que a mãe dedica ao filho. Neste caso, o que se vê é uma representação na qual o tema pode ser a atenção materna e o choro como indicador da fome, o elemento deflagador da situação, mas ele não é o fator essencial de sentido e de significação, como dito, o sentido que se espera se refere ao amor materno. O outro exemplo, do sujeito que esbraveja, ao fazer isto no mundo natural, poderá causar o constrangimento ou indignação entre as demais pessoas com as quais dialogue ou que estejam próximas. Ao transpor esta situação para a ficção, no cinema ou o teatro, o que se tem é uma representação de um estado de ânimo, forada realidade e uma introdução no campo da ficção e da fantasia, da criação. Assim é possível distinguir algo que ocorre no mundo natural, daquilo que ocorre no mundo da cultura ou da Arte.

A Arte Visual lida com fatores e elementos visuais, tanto plásticos como técnicos e tecnológicos que operam em bases imagéticas. Digo imagéticas por considerar que a construção de imagens não é só coisa da Arte, mas uma das coisas que a Arte opera, ou seja, a Arte Visual contém imagens mas nem toda imagem é arte. Sempre digo, quase como  um Mantra, que: "Imagem é uma configuração visual produtora de sentido". Contudo o sentido produzido por elas nem sempre estão no contexto da Arte. Podem estar em outros contextos como os da publicidade, propaganda, comunicação visual, design, projetos arquitetônicos, gráficos e em muitos outros com os quais convivemos na sociedade e na cultura. Portanto, imagem e Arte podem estar juntas ou não. Isto tem a ver com a questão da atribuição, proposição ou com os destinos dados às imagens em cada tempo e cada lugar.

A expressão artística, portanto, promove uma reoperação, a ressignificação de estados e valores para destaca-los com o fim de refletir sobre eles ou simplesmente adota-los como tema ou assunto. Pode até imita-los, reproduzi-los mas não os adota-los como reais ou parte do mundo natural ou como se fosse verdade absoluta e irrefutável, sabe-se que a Arte trabalha com efeitos de sentido e não com eles propriamente ditos. Pode-se dizer então que opera com valores estésicos que são sentidos e sensações advindas da apreensão e significação do mundo, chamados por Alexander Gotlieb Baumgarten, em 1750, de Estéticos. Inaugura assim a Estética como ciência do Belo e da Arte, como intitula seu livro. Assim temos o segundo elemento importante para a compreensão da Arte a Estética, ou seja um tipo de manifestação especial que não se importa muito com o que está no mundo mas com o que está no seu próprio contexto, o da Arte.

Como professor, me senti na obrigação de tentar encontrar um meio de facilitar a compreensão do que se pode entender por Arte. Seguindo o raciocínio aqui explicitado, recorri a três aspectos distintos e necessários para a compreensão da Arte: ela é humana e só existe ao ser manifesta/expressa segundo critérios e valores estéticos.
Deste modo pude formular uma explicação capaz de reduzir um conceito complexo em uma só frase:
"Arte é a manifestação estética da humanidade".

Embora pareça uma afirmação tautológica, comporta uma explicação plausível e, por meio dela, é possível abordar o que é Arte, pelo menos no contexto acadêmico e pedagógico com o qual lido.
Acredito que ela ajude a entender o conceito de Arte, pois não há dúvida de que a Arte só existe por meio de sua manifestação aos sentidos; também não há dúvida de que uma manifestação artística para ser assim compreendida, deve ocorrer a partir de proposições de caráter estético ou, pelo menos, com ele dialogar; o terceiro ponto é constatar que só o ser humano é capaz de produzir Arte já que os outros animais ou seres vivos não são capazes de se expressar esteticamente dentro ou fora da Arte já que não se comportam volitiva ou conscientemente com tal intenção.

Grato pela leitura, espero que tenha ajudado a melhor entender o contexto da Arte Visual, agradeço o  compartilhamento, obrigado.