REFLEXÕES - Fotogastronomia: uma tendência atual.

Feijoada, Isaac, 2016.
Embora o termo fotogastronomia não exista no dicionário, é um neologismo que surge para dar conta de uma área crescente no contexto da fotografia. Posso destacar, pelo menos três motivos que me levam a escrever sobre este assunto: primeiro gostar de fotografar, segundo gostar de cozinhar e terceiro porque, durante todo o meu trajeto acadêmico, na maior parte dele, fui professor de fotografia. Por isso me pego sempre pensando nas relações, aplicações, funções e destinos nos quais a fotografia é protagonista ou coadjuvante. Nesse caso com um gostinho especial: o de unir duas coisas que me dão prazer, a fotografia e a culinária.

Outro aspecto motivador é a constatação de que a presença da fotografia culinária  nas mídias de comunicação aumentou substancialmente. A imagem fotográfica culinária tem presença constante em diferentes mídias e suportes como cartazes, revistas e livros ou nos meios digitais fixos e on line, tem crescido dia a dia e inundado o nosso cotidiano enchendo nossos olhes de desejo e de prazer.
Quem não gosta de ver uma bela fotografia de alimentos estimulando-nos ao prazer da boa mesa?



Constatamos também que o universo gastronômico tem apresentado mudanças substanciais na prática profissional, quer seja por meio da qualificação dos chefs internacionais e nacionais e pelas escolas de culinária no Brasil e no exterior, bem como pela crescente valorização do preparo e apresentação dos pratos, produtos e equipamentos nesta área.

Contudo, mesmo que a presença da fotografia de qualidade esteja ganhando espaço nesse meio, também encontramos imagens precárias e sem qualquer cuidado tanto em relação aos aspectos conceituais quanto técnicos. Isso decorre, em parte, da facilidade para tomar e publicar imagens nas redes sociais e, muitos daqueles que tomam essas imagens o fazem sem qualquer informação ou respeito ao alimento ou ao bom senso. Nesse caso, acabam gerando o efeito contrário. Embora a quantidade de imagens seja imensa, ainda temos poucos fotógrafos, ou seja, profissionais preparados para realizá-las com eficiência.



É justamente a facilidade para a documentação de processos e preparos culinários e, sobretudo a veiculação na mídia, tem requerido da fotografia um aperfeiçoamento contínuo em busca do aprimoramento das técnicas de registro e sua difusão, além disso, o aumento da qualidade de profissionais dedicados exclusivamente à elaboração e preparo de alimentos para destinados a se tornarem "modelos" fotográficos também cresceu tanto quanto o desenvolvimento do contexto gastronômico.

Chefs, culinaristas, fotógrafos, estilistas e até cenógrafos passaram a atuar nesse universo munidos de conhecimentos, habilidades e estratégias que vão além do domínio culinário e se especializam no domínio imagético, estético e conceitual produzindo imagens capaz de convencer o mais cético dos mortais a compartilhar um prato ou preparo gastronômico com o prazer de um gourmand.

Fazer fotografia de alimentos é também um desafio na medida em que o que se mostra precisa, acima de tudo, convencer o espectador de que o que se vê é agradável à visão e ao paladar. O problema é que só se tem a imagem, o sabor, gosto, o paladar não entra na jogada, então há um grande problema: como fazer com que a imagem supra a ausência dele?
Aí entra a Fotogastronomia.



Fotografar alimentos, especialmente os já processados, não é fácil. Para fotografar nesta área, não basta conhecer as técnicas fotográficas, é necessário conhecer também as técnicas culinárias, o que requer dos profissionais maior competência e especialização. A veiculação destas imagens, além de serem fixas, não tem como contar com os aromas e sabores típicos dos preparos culinários, nesse caso, é apenas na imagem fotográfica que se concentram os esforços para aumentar a eficiência da informação nesta área.

Muitos dos processos de preparação atuam diretamente sobre a aparência dos alimentos e alteram suas características como coloração, textura, hidratação e outras propriedades que são necessárias ao processamento do alimento, mas produzem efeitos imprevisíveis para a fotografia, logo, boa parte do trabalho do fotógrafo ou do estilista culinário é dedicada à anular ou minimizar os efeitos do processamento e preparo dos alimentos no intuito de dar aos pratos uma aparência mais natural e agradável.



Em primeira e em última instância, o que se espera da fotografia de alimentos é que seja suficientemente estimulante para atrair o olhar e comunicar ao leitor as informações correlacionadas aos alimentos e suas qualidades sensíveis como aparência, preparo, cor, textura, apresentação, iluminação etc.



O mercado de trabalho nesta área compreende um conjunto extenso de clientes com diferentes necessidades, sejam os produtores de alimentos; comerciantes de produtos alimentícios e/ou de equipamento, utensílios e instrumentos culinários; editores, gráficas; empresários da área de hotéis, bares, restaurantes e lanchonetes e categorias similares; chefs, gastronômos, gourmets entre outros.



Ao mesmo tempo, esse mercado tem sido substancialmente reforçado e aprimorado pelo desenvolvimento da tecnologia digital de produção, tratamento e distribuição de imagens. Isso proporciona um crescimento assombroso na quantidade e na disseminação de imagens de alimentos por meio de sites, blogs e demais espaços destinados ou relacionados à culinária no contexto da rede mundial de computadores, cada um de nós em alguns momento se sentiu um produtor ao postar uma imagem dessas em redes sociais. Isso faz com que esse olhar sobre os alimentos seja mais aguçado e também mais exigente, daí a necessidade de aprimoramento contínuo desta área.

Não há dúvida de que a fotografia é, de fato, o recurso mais indicado para dar conta desta crescente necessidade e é sobre ela que recaem as exigências de performances cada vez mais eficientes tanto em relação à documentação quanto à apresentação e difusão do trabalho dos culinaristas.É por meio dela que se constrói a abordagem para mobilizar as pessoas que apreciam a boa mesa cativando-as pela visualidade e, quem sabe, estimulando-as a buscar novas e ricas experiências gastronômicas.

Isto requer maior investimento nas técnicas e estilos na criação do material visual disponibilizado nesta área, o que implica necessariamente no aprimoramento dos profissionais da fotografia e da imagem. Nesse sentido duas tendências surgiram e têm sido muito requisitadas nesse contexto: a do Food Stylist e do Food Photographer.

Imagem relacionada
https://www.amylevin.co.uk/product/food-photography-styling-workshop-3rd-nov-2018/

Identifico duas grandes tendências estilísticas nesse ramo: uma que busca um olhar mais próximo do efeito de realidade, preciso e técnico que chamo de Editorial e outro, mais expressivo, que valoriza o aspecto plástico, formal e estético que chamo de Natural. O primeiro pode se mostrar como mais objetivo e generalista e o segundo como mais subjetivo e intimista. Percebi isso ao observar as publicações impressas e virtuais de hoje em dia.

Por exemplo: num livro de receitas as fotografias querem, por um lado, dar a ideia de como aquele preparo poderá ficar e, por outro, estimular o leitor para executá-lo senão o livro perde sua finalidade e sentido. Acredito que quanto melhor for a fotografia, mais estimulante será para o leitor. Se a foto de um prato for mal feita, penso que não levará ninguém a tentar realizar aquela receita. É a visualidade que convoca nosso olhar e, por meio dele, estimula o apetite. Pode-se dizer que começamos a comer com os olhos.

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Para atuar nesse contexto o ideal é se preparar profissionalmente. Alguns profissionais experientes têm proposto um ou outro workshop como estratégia para introduzir os interessados nesse campo. Penso que seria também muito interessante contar com disciplinas especializadas, nos cursos de gastronomia, assim teríamos, ao mesmo tempo, maior esmero na elaboração e apresentação de alimentos e também a qualificação da comunicação e difusão da produção culinária resultando em maior visibilidade para os próprios cursos, como também para os profissionais da gastronomia.

Espero que este texto seja um estimulo para olhar esta área com mais prazer, quer como produtores ou... degustadores...
Agradeço o compartilhamento.

REFLEXÕES - Arte e Artesanato: Relações de aproximação e afastamento.

Artesanato é Arte? Quando algo é Arte e quando é Artesanato? Estas são questões que sempre chamam a atenção quando pensamos em Arte Visual.

Quando olhamos para trás, especialmente, para as manifestações artísticas tradicionais, vemos que a maioria delas depende das habilidades psicomotoras como o desenho, a pintura, a modelagem, a escultura, as montagens, as incisões e a gravura entre outras poéticas que posso ter omitido. Constatamos que há a necessidade da manipulação de materiais, instrumentos e ferramentas para a realização destes processos e que, sem isso, as obras não podem ser configuradas, logo, este é um primeiro ponto de contato entre o artesanal e o artístico. No entanto, até que ponto, o aspecto artesanal interfere ou define o processo de criação artística e quanto é importante para ele?

Grande parte das manifestações artísticas humanas dependem de ações corporais e, principalmente, de habilidades no desempenho destas ações. Como exemplo podemos pensar na dança que exige um controle extremo do corpo em movimento. Se olharmos a música instrumental, vemos que um instrumentista só consegue interpretar uma partitura musical se tiver o completo domínio do instrumento, ou seja de suas mãos sobre ele. Obviamente não há como ter o domínio psicomotor sem que haja também domínio cognitivo. Nesse caso, estas duas habilidades são exigidas da arte e do artesanato, como são também exigidas de um cirurgião, de um odontólogo e também de um ourives, de um biólogo e em outras áreas em que habilidades manuais são condições sem as quais uma pessoa não consegue exercer com eficiência as tarefas de sua profissão.

Bem, então dá para perceber que as habilidades manuais são necessárias em muitos campos, inclusive no da arte ou do artesanato. Mas é necessário ainda distinguir arte e artesanato, nesse caso, acredito que seja mais uma questão de função, interesse, finalidade e até de nichos ou segmentos culturais que, de um modo ou de outro, independem de habilidades manuais ou corporais.

Embora a artesania exigida nas primeiras manifestações artísticas fosse muito maior do que a que se exige das manifestações atuais, esta não é a questão principal da Arte Visual contemporânea.
A arte tradicional requeria grandes habilidades dos artistas ou daqueles para os quais delegava a produção, pois, como construtores e imagens e narrativas, acreditava-se que, ao reproduzir as imagens assemelhadas ao mundo natural era um valor e uma qualidade artística. Só a partir do Renascimento que a distinção entre Artesanato e Arte passou a ser considerada como uma distinção importante, pois até então, se entendia os produtores de arte como artesãos especializados.

Há também um fator importante que é considerar a fatura de um objeto como parte do processo criativo. Reconhecer as habilidades técnicas de um artista como um dom ou valor fazia com que aqueles que possuíssem mais habilidade fossem considerados melhores do que aqueles que não as possuíam. As habilidades manuais eram um diferencial importante para a consagração de um artista. Isso foi reforçado também com o Modernismo, só que no sentido oposto, aqueles que explorassem, criassem, pesquisassem, investigassem, inventassem novos procedimentos, materiais, estratégias discursivas e soluções plásticas ou conceituais passaram a ter maior reconhecimento, independente de possuírem grandes habilidades manuais ou artesanais. Contudo, a associação entre habilidades pragmáticas e artesanais ainda eram consideradas pertinentes ao campo da Arte e seus fazeres.

Com o desenvolvimento da industrialização no século XVIII e XIX surge a primeira crise de identidade entre arte e artesanato. Os processos de mecanização industrial começam a reprimir a atividade artesanal, não são mais os artesãos que fazem móveis, utilitários, vestuários e objetos para a decoração, ornamentação. Entende-se que isso leva a uma "desumanização" da produção e a consequente transformação das habilidades dos artesãos e artistas para a simples tarefa de operação de máquinas para a produção em massa. Willian Morris, artista, inspirado no discurso do crítico de arte John Ruskin passa a defender a produção artesanal como fator de qualidade técnica e cultural. Instaura o Movimento Arts & Crafts e funda a Morris, Marshall, Falkner & Couma empresa destinada a empregar artistas e artesãos na realização de projetos e produtos. Este movimento também contribuiu para Walter Gropius definir o projeto pedagógico da Escola Bauhaus alemã no século XX, onde a relação entre forma/função/estética se torna uma proposição conceitual, o que acabou sendo a base para a criação do Design como campo de conhecimento, formação e produção vinculado à indústria.

Há dois aspectos que decorrem destas falas: uma é o fazer manual tomado como um fator importante da realização artística em várias áreas e outra é a imposição das tecnologias de produção industrial em massa que suprimem os fazeres manuais. É como se o desenvolvimento tecnológico fosse o único e grande algoz da arte ou da artesania. Para tentar esclarecer melhor isso, volto a problematizar algumas questões apontadas anteriormente quanto a: função, interesse, finalidade, nichos ou segmentos culturais. O mundo muda e a arte como uma manifestação social também muda!

A primeira questão: As funções da Arte ou Artesanato são as mesmas?
Primeiro temos que definir o que se pode entender por Função. Como estamos no contexto da Arte, vamos tomar por referência as Funções da Linguagem de Jakobson que, entre as diferentes funções que identifica, admite a Função Poética, centrada no fazer estético. É assim que entendo a finalidade primeira e fundadora da Arte, da expressão ou manifestação artística: a estética antes de qualquer outra.
Cabe também esclarecer que Estético ou Estética não é sinônimo de Forma ou Plástico ou Cosmético ou qualquer outra interpretação insólita deste termo. Estética é um ramo da filosofia dedicada aos estudos referentes aos princípios e procedimentos poéticos fundadores da criação artística. É um Substantivo e não um Adjetivo. Estética é o que motiva e ampara a criação artística, independente de outras finalidades que venha a cumprir ou realizar no contexto social.
Nesse sentido, embora haja na configuração de várias manifestações artesanais elementos relacionados à habilidades motoras e componentes plásticos e visuais, embora surjam da vernacularidade do contexto do qual resultam, não se pode dizer que a função do Artesanato seja Estética. Embora muitos deles se destinem à ornamentação, decoração e, na maior parte das vezes, ao utilitarismo, não significa que sejam, por definição, Arte.
Obviamente que a restrição aqui colocada tem uma base erudita e condicionada ao saber construído e consolidado no campo da Arte Visual no contexto da tradição ocidental. Por outro lado, se considerarmos a cultura como o campo de todas estas manifestações, inclusive a antropologia e as variações etnográficas e populares estaríamos, nesse caso, considerando que todo fazer manual, industrial ou qualquer outro que surja da cultura humana é Arte, contudo, isso é difícil sustentar.

A segunda: Os interesses da Arte ou do Artesanato são os mesmos?
Pode-se dizer que o principal interesse da Arte é a Expressão, mas não qualquer expressão. Quando alguém manifesta sua indignação por algo que lhe ocorreu, não significa que isto seja expressão artística, embora manifeste seus sentimentos mais sinceros. Entendo que a Manifestação artística se destine a revelar aos outros o caráter estético que motiva e estimula a criação.
Portanto o principal interesse da Arte, a meu ver, é a própria pesquisa. Um artista se dedica a explorar os potenciais expressivos tanto pessoais quanto dos meios, recursos e potencialidades que emergem do processo e das proposições que estabelece como metas para sua criação.
O Artesanato, por outro lado, busca fins quase que exclusivamente pragmáticos. Este pragmatismo se mostra em diferentes dimensões: um diz respeito aos produtos criados dentro da tradição vernacular e com finalidades funcionais como a confecção de objetos e utensílios criados a partir dos materiais disponíveis ou tomados do meio para transformá-los em coisas utilitárias como recipientes, vasos, colheres e outros objetos destinados ao uso; outra dimensão é a ornamental ou decorativa na qual os objetos criados são destinados a enfeitar ambientes; outra ainda, compreende a função simbólica, na qual a criação se destina a produzir artefatos de caráter místico como amuletos, representação de divindades ou entidades religiosas sem fins artísticos propriamente ditos.
Na maioria das vezes, se destinam ao contexto no qual estão inseridos, suas comunidades e ambiente e não ao circuito ou sistema de arte.
Embora, não se possa negar que muitos artistas dependam ou visem o mercado de Arte, tanto por questões de sobrevivência quanto de interesses exclusivamente econômicos, ainda assim há diferenças substanciais em comparação com o campo artesanal, pelo menos a diferença entre o erudito e o popular que orientam um e outro.

A terceira: Os fins de uma e de outro são os mesmo?
Como argumentei até agora, percebe-se que os fins de um e de outra são diferentes. Se para a Arte a questão estética é priorizada sobre a material ou pragmática, pode-se dizer que para o Artesanato, a questão pragmática é muito importante, mesmo porque a maior parte da produção artesanal se encontra nas camadas economicamente mais baixas da sociedade e, em muitos casos, é a única relação que se tem, supostamente, com a "arte". Outras vezes é um meio ou aporte econômico para a renda de muitas famílias.
Obviamente que este tipo de constatação reforça a ingerência econômica do poder instituído pelo capitalismo que manipula a produção e circulação de bens elevando ou enaltecendo uns em detrimento de outros.
Pode-se dizer que há muito interesse comercial sobre a Arte na medida em que uma grande parte dos ativos financeiros de grandes empresas e capitalistas passam por esta ponte. A questão é que à elite econômica mundial não interessam as manifestações populares pois não contam como o apoio e a difusão da mídia como os artistas adotados pelo mercado.
Embora o mercado faça parte do sistema cultural e econômico da sociedade a Arte, como parte dele, não está isento de interferências e interesses. Contudo, não define que a produção artística seja única e exclusivamente destinada ao mercado. Há uma certa expectativa para que tal produção  seja diversificada o suficiente para atender tanto a demanda cultural quanto de mercado.

A quarta e, por enquanto, última: em que nichos ou segmentos culturais ela e ele atuam?
Seguindo as linhas de raciocínio que apresentei até agora, posso dizer que há diferentes nichos ou segmentos culturais nos quais tanto a Arte quanto o Artesanato encontram respaldo social.
O Sistema de Arte é o contexto do qual fazem parte tanto os produtores, difusores, estudiosos, colecionadores, instituições artísticas como museus e comerciais como galerias, marchands e leiloeiros. Embora não existam regras para a constituição deste Sistema, há condutas e comportamentos que, ao longo do tempo, se consolidaram e estruturam os modos de produzir e consumir Arte na sociedade. Por outro lado, não há nada disso destinado ao contexto artesanal,
Embora existam programas de pesquisa institucionais dedicados tanto aos estudos da Arte quanto do Artesanato. Existem também institutos e museus para uma e para outro, assim como mercado para uma e para outra.
Não considero ser relevante estabelecer distinções entre uma e outro, já que tanto uma quanto outro, fazem parte do mesmo contexto cultural no qual vivemos com todas as possibilidades e potenciais para que ocorram diferentes manifestações, independente do nichos ou segmentos nos quais se encaixem ou para os quais se destinem.

Acima, uma imagem típica do artesanato nordestino com temática regionalista. http://istoecampanha.blogspot.com.br
Observe a imagem acima: nela é possível exemplificar o que disse à respeito do Artesanato até aqui. Há, sem dúvida, um domínio técnico sobre instrumentos e materiais, embora dedicado à reprodução em série de objetos que se destinam ao mercado do que se pode chamar, no senso comum de "Arte Popular". Na minha opinião Arte Popular existe e condiz com os mesmos critérios da Arte Erudita, apenas que as orientações estéticas, temáticas e poéticas se diferenciam uma da outra, mas ambas se diferenciam em relação ao Artesanato.

Para deixar clara a diferença entre o Artesanal e a Arte, observe abaixo a obra de Jackson Pollock:



Pollock desenvolveu um procedimento que revolucionou o modo de pintar: ao invés de aplicar a tinta na superfície da tela como comumente se fazia, passa a produzir suas obras por meio de "respingamentos", projetando, por meio de gestos, a tinta colhida pelo pincel sobre a superfície da tela, processo chamado de Action Painting. Nesse caso, a habilidade de pintar, como se entendia anteriormente, assumiu um outro patamar onde a questão Performática e Gestual se torna o meio e modo de fazer e reduz a, praticamente, zero, a habilidade de manipular pincéis,
Hoje em dia o que se propõe no contexto da Arte é que o observador, apreciador crie um diálogo com a Obra de Arte por meio de reflexões que, neste caso, chamamos de Estética. Espera-se motivá-lo para analisar os processos constitutivos e propositivos que orientaram o autor e como, ele enquanto expectador, possa tirar conclusões próprias a partir dali.


Auto Retrato de Chuck Close, 1968

O que se vê aqui é uma pintura! Incrível não? Até parece uma fotografia!
A proposição de Close se enquadra dentro do Hiper-realismo, tendência estética que surgiu no contexto da Pós-Modernidade, a partir da década de 1960.
Os artista dedicados a este processo se propunham ao desenvolvimento de habilidades psicomotoras extremas com o fim de "Enganar a Vista". Queriam criar a ilusão de que o expectador estivesse diante de uma fotografia mesmo. Recorriam, inclusive, aos efeitos óticos que as lentes fotográficas produzem. Neste sentido pode-se dizer também que tinham um alto domínio técnico, uma excelente "artesania". No entanto, devo dizer que não era a habilidade manual que estava em jogo, mas sim a ilusão, o efeito de realidade como elemento de significação.

Entretanto, não é apenas a técnica ou a habilidade em realizar uma tarefa que qualifica um artista ou um artesão.

Peça de artesanato indígena onde a temática e o material se origina no seu meio ambiente.

Na imagem acima, vemos a representação de um conjunto de onças, supostamente mãe e filhotes. Percebe-se que a pessoa que a realizou detém os domínios técnicos necessários para lidar com o material e com as ferramentas exigidas para isto. Quero dizer que, tanto para a produção artística quanto para a produção artesanal, há dependência de diferentes habilidades, sejam elas cognitivas ou psicomotoras. As escolhas por quais habilidades serão aprendidas, dominadas e desenvolvidas para a execução de suas obras, dependem dos produtores. Para criar, para manifestar-se dentro de uma poética ou para construir algo dentro de uma técnica há que se aprimorar certos domínios. Neste sentido tanto a Arte quanto o Artesanato se parecem. Mas como dissemos os fins são diferentes.

O artesão não tem qualquer preocupação em propor maiores reflexões em torno de seu trabalho, senão ofertar um produto que ele deve saber fazer muito bem. Normalmente o que ele faz é desenvolver suas habilidades manuais para a realização de um produto e investir na sua reprodução em maior escala e, como não é industrial, a manutenção de sua atividade depende em grande parte de seu fazer individual, o que exige dele apenas habilidades pragmáticas, pouco reflexivas. Para ele, basta fazer o que se propõe a realizar e isto é suficiente para mantê-lo ativo no exercício de seu ofício em relação ao seu público, pois para ele não há cobranças de caráter crítico, conceitual ou estético.

Pintura artesanal publicada no rj.quebarato.com.br,

Para o artesão basta agradar ou enfeitar algo que sua meta já foi completamente cumprida. Seus trabalhos não são submetidos a qualquer tipo de julgamento, sejam técnicos ou estéticos.

Mas, ao artista não basta fazer algo bem, é necessário ir além, é preciso promover a interação entre a obra e o apreciador, estimular o diálogo, a reflexão crítica sobre o pensamento estético e aprofundar os conceitos que amparam a realização de seu trabalho poético. Em suma, enquanto o trabalho do artesão é essencialmente prático e objetivo, o do artista é filosófico, intelectual e, em boa parte, subjetivo.




A obra de Waltércio Caldas, "A Emoção Estética", acima, revela a orientação conceitual do artista dedicado a criar novos estímulos estéticos, por meio de diferentes tipos de materiais e propostas. O Conceitualismo não depende, necessariamente, de domínio psicomotor as obras se caracterizam por  ideias, conceitos e proposições que envolvem, principalmente, reflexão estética.
Esta imagem faz parte de seu livro: Manual de Ciência Popular, no qual produz fotografias a partir da combinação de diferentes elementos e objetos. Ampara tais imagens por meio de textos que perpassam reflexões estéticas, filosóficas e irônicas.

Como Funciona a Máquina Fotográfica, Waltércio Caldas, Manual da Ciência Popular.

Como vemos, estes dois universos podem ser parecidos, mas são extremamente distintos, cada um no seu contexto. A arte, dita erudita, é um campo de experimentação e pesquisa especializada que opera num sistema complexo e sofisticado, dependente da intermediação de estudiosos e críticos para atingir a plenitude de suas proposições enquanto o artesanato opera sem exigências conceituais e estéticas. Enfim, quando pensamos nestes dois contextos, fazemos inferências e exercitamos nosso conhecimento sobre arte e cultura, boas reflexões....
Curtam e compartilhem, agradeço.

EM PROCESSO - Olá, eu me chamo Isaac, sou Carvólatra...

Desenho à carvão, Isaac.
Como já devem ter visto meus trabalhos plásticos têm um componente gestual expressivo recorrente que é a grafia, que chamo de comportamento "Desenhatório", uma espécie de tendência para o Desenho. Para que ele se realize há a necessidade da utilização de meios, instrumentos e materiais que produzam e mantenham rastros, marcas e registros. Vários instrumentos e materiais foram utilizados pelos artistas e criadores ao longo do tempo para plasmarem imagens em diferentes superfícies.

Na pré-história uma das atitudes que nos diferenciou das demais espécies foi a capacidade de abstrair e criar imagens e, um dos primeiros materiais usados para isto foi o carvão.
Confesso que tenho grande admiração pelo carvão devido às imensas possibilidades de uso e efeitos possíveis em sua aplicação é ai que entra a predileção por ele que batizei de Carvolatria, ou seja, a fraqueza do Carvólatra, a adicção do cara que usa carvão para criar imagens compulsivamente... Brincadeiras à parte, vamos ao processo.

Entre as primeiras imagens criadas na pré-história estão os Desenhos. Alguns feitos por meio de incisão sobre rochas, outros feitos com rastros de minerais e outros realizados com carvão mesmo. A obtenção deste material resultava da apropriação dos resíduos da queima acidental ou provocada da madeira ou de outras substâncias carbonizáveis. Não se pode dizer que o único uso deste material fosse gráfico, há informações que dão conta do seu uso curativo no preparo de unguentos, de pastas para uso "medicinal" em várias culturas, hoje em dia o é usado para purificação e contra intoxicações, logo, sua utilização é ampla, desde aplicações como "detox" graças à sua capacidade de absorção de toxinas do ar e em contextos orgânicos como carvão ativado para filtros biológicos, até para fazer o churrasco do fim de semana, então: Carvão é tudo de bom!

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Incisão Rupestre pré-histórica: desenho cavado na rocha, encontrado no Marrocos.
A caverna Chauvet Pont d´Arc na França descoberta em 1994 detém um dos maiores conjuntos de imagens produzidas com carvão há 35.000 anos.

Caverna Chauvet Pont d'Arc, desenhos feitos à carvão na pré-história.
Grafias como linhas, manchas, sombras, nuances e adensamentos são obtidos com o simples carvão.
O Carvão Vegetal é obtido a partir da queima ou carbonização da madeira cujo resultado são fragmentos porosos e negros com maior ou menor rigidez. Nem todo carvão obtido da queima de madeira é adequado para uso artístico, embora todos possam ser usados para isto há alguns mais eficientes para isto, ou seja, obtidos de vegetais mais porosos. O carvão de hastes de videira, de vime, de arbustos ou árvores frutíferas em geral são mais adequados. Assim podemos obter nosso próprio carvão, mas um detalhe importante é que, preferencialmente, esse carvão não pode ser sempre obtido da queima direta, mas indireta, em contêiners que o queimam sem deixá-los rígidos.

O que interessa é o seu uso plástico. Embora todo fragmento carbonizado possa deixar rastros e marcas em superfícies, os que servem melhor ao desenho ou à expressão gráfica devem apresentar certas características: maciez, porosidade, homogeneidade e consistência, então há Carvões e carvões. Há momentos em que o processo criativo busca traços consistentes e muito negros e outros em que se quer traços leves e transparentes promovendo variações de luminosidade, textura e cobertura da superfície. Observe os detalhes abaixo:


Nos detalhes mostram uma aproximação do mesmo desenho à carvão de um de meus trabalhos, em que as texturas podem ser observadas em suas nuances.

Mesmo que seja possível apropriar-se de resíduos carbonizados de vegetais para desenhar, há uma grande oferta de Carvão nas lojas de materiais artísticos. A indústria de material artístico, atenta ao potencial expressivo do carvão, foi esperta o suficiente para identificar alguns tipos de vegetais que atendiam melhor aos procedimentos artísticos. A videira, o salgueiro e o vime entre outros que passaram a ser colhidos e mesmo produzidos para este fim. As hastes destes vegetais são carbonizadas, selecionadas e embaladas para comercialização. Para aproveitar também o subproduto carbonizado, passaram a prensá-lo para produzir barras com diferentes densidades: mais densas ou mais suaves. Usaram também para fazer minas para lápis. Enfim, hoje em dia há diferentes recursos nos quais o carvão é utilizado como matéria prima para a produção de material de qualidade destinado à criação e à Arte. Contudo ainda é possível recorrer ao carvão de churrasco para experimentar alguns efeitos expressivos, então temos carvão para toda obra.

Como há variação de carvões, variam também os efeitos obtidos por cada um deles, como também variam as necessidades e características plásticas impostas pelos artistas aos seus trabalhos, quer seja por meio do tipo de carvão ou do suporte utilizado. Nesse contexto estas variações visuais se tornam os elementos de sentido que constroem a significação. Ao observar uma imagem produzida com carvão, não é apenas a figuração, o tema, o assunto que se deve levar em conta, mas também todos os efeitos e condicionantes plásticas como a textura, gradação tonal e recursos técnicos aplicados durante o processo de execução da obra. Como na apreciação de toda Obra de Arte, é necessário levar em conta tanto os aspectos conceituais quanto os aspectos técnicos.

Desenho à carvão, Isaac.
Em 1530, Michelangelo usa o carvão para desenhar várias imagens nas paredes de uma pequena sala sob a Capela Medici da Basílica de S. Lorenzo, onde havia se abrigado de uma das batalhas entre as famílias dominantes, daquele período. São estudos de figuras que realizou durante os meses que permaneceu escondido. Um dos usos comuns do carvão era a realização de estudos e esboços para obras definitivas, como na pintura.


Da Vinci usa o carvão para produzir estudos de: A Virgem e o Menino com Santa Ana e São João Batista, 1499-1500, no qual faz furos milimétricos para transferir a imagem para o suporte definitivo por meio de pó de carvão, técnica comum na época.


Outra técnica utilizada era desenhar à carvão numa superfície de papel, por exemplo, e depois pressionar este desenho sobre o local onde seria produzida a imagem definitiva, uma cópia de contato. Vários procedimentos, fossem preparatórios, parciais ou definitivos foram desenvolvidos a partir do uso do carvão. O uso mais comum era o de traçar esboços sobre telas antes da pintura para delimitar áreas ou a própria imagem que, pela fragilidade do material, simplesmente desapareceria sob a pintura.
No entanto, esse era o problema que todo desenhista enfrentava com o carvão: Como fazer com que um material, quase volátil permanecesse numa superfície?
Se a superfície é porosa, o carvão a revela, expõe, explicita e faz com que sua textura seja valorizada e se torna também elemento de significação neste processo, mas também o mantêm frágil: um pó que pode ser retirado até pelo vento...

Os primeiros recursos que surgiram e preservaram o material foram as gorduras orgânicas ou resinas vegetais, a mistura do carvão com estes aglutinantes ou amalgamantes, possibilitaram a manutenção por mais tempo nas superfícies ou suportes. Era o recurso dos primeiros seres humanos nas cavernas nas quais se abrigavam.
Mais tarde os artistas passaram a fixar tais imagens com cola, o processo consistia em preparar a superfície com cola liquida, deixar secar e desenhar por cima. Terminado o desenho o suporte era exposto ao vapor para que a cola derretesse e o carvão fosse incorporado a ela.
Outro processo era o de mergulhar as hastes de carvão em óleo ou resina fazendo com que aderisse melhor sobre a superfície, o que também a manchava e não produzia um bom acabamento.

Embora pouco eficiente era o que podia ser feito, mais tarde, graças ao desenvolvimento de novos vernizes e de novos processos de aplicação foi possível borrifar verniz sobre a superfície desenhada sem risco de alterar o desenho. O surgimento dos tubos de verniz comprimido, como sprays, possibilitaram novas variações como acabamento fosco ou brilhante, com ou sem filtros Ultra Violeta. Assim foi possível intensificar o uso das técnicas à carvão sem correr os riscos que os artistas do passado enfrentaram.

Abaixo mais dois detalhes de desenhos meus para ilustrar seus efeitos, tanto de imposição de traços, quanto da retirada por apagamento. O branco surge do suporte ou quando se "apaga" um traço ou se constroem outros traços com borracha.




Hoje em dia é possível retomar com mais eficiência os processos de desenho à Carvão preservando quase que integralmente os efeitos plástico/visuais, como as texturas e variações tonais, mantendo a essência poética destes procedimentos, assim surgiram os Carvólatras... que, como eu, investem na exploração deste recurso atávico, ancestral, histórico, rico e atual.


Sugiro que experimente, curta, enfim, conhecimento é pra compartilhar!

REFLEXÕES - Professor: um personagem importante...



Quem não teve uma professora ou professor que marcou sua memória?

Todos aqueles que tiveram a oportunidade de submeter-se ao ensino formal, em algum momento dessa trajetória, encontraram pessoas que reuniram conhecimento, conduta e disposição para exemplificar o melhor do ser humano e, naquele momento, se tornaram exemplos marcantes para muitos em suas carreiras e posturas. Por isso, acredito, que uma data só não baste como homenagem a essas personagens, quase anônimas, que ocuparam algum tempo de nossas vidas, mas que não nos deixaram até hoje.

Dia 15 de outubro é a data destinada a comemorar o “Dia do Professor”. Para muitos, apenas mais um feriado escolar, para outros um Marco. O primeiro marco foi a criação do Ensino Elementar no Brasil, lei criada pelo imperador D. Pedro I, promulgada em 1827 em 15 de outubro, dia dedicado a educadora Santa Tereza D´Avilla. Assim foi implantado o ensino oficial no Brasil. Em todas as cidades do país foram criadas as Escolas de Primeiras Letras, sem dúvida: um marco.

O segundo marco foi a reunião de alguns professores do então Ginásio Caetano de Campos, em S. Paulo que organizaram, em 1947, um desfile festivo para comemorar a data, aproveitando o único período de recesso no longo segundo semestre do ano, entre o dia primeiro e quinze de outubro. O evento acabou se repetindo nos próximos anos como um momento de congraçamento entre professores, estudantes e familiares.

Um novo marco foi o reconhecimento da data por meio do Decreto Federal no. 52.682 de 1963 que oficializa este dia no calendário comemorativo nacional. Na América Latina o dia é comemorado em 11 de setembro e a UNESCO define, em 1994, a data de 5 de outubro como dia internacional.

Dados relativos às efemérides são comuns em todos os países que, em momentos de reflexão, contemplação ou pena resolvem homenagear seus marcos históricos, seus heróis e mártires. A questão que resta é que, nem sempre, o significado original é lembrado, tampouco sua importância. Que falta de memória! Assim, uma data relevante se torna apenas uma marquinha vermelha na grade do calendário.

Se não bastasse a perda de memória, somos vítimas de maiores perdas como o próprio objetivo da Educação. No decreto imperial o objetivo era fazer com que as pessoas aprendessem a aprender, tivessem condições básicas para enfrentar o conhecimento e dele se apropriar. Esta é a principal meta do ensino fundamental que, até hoje, orienta as propostas pedagógicas. O problema é que nos “esquecemos” de como fazer isso. O Ensino Fundamental e Médio ficou relegado a sua própria sorte. Muitas escolas oficiais não possuem as condições e os requisitos mínimos previstos pelo Imperador para implantação do ensino oficial no país.

Parte disso corresponde à crescente “comoditização” do país por meio da exploração desenfreada das reservas minerais, ambientais por meio do extrativismo intenso, da agricultura predatória e de outras estratégias de arrefecimento de ânimos e vontades transformou a escola num não-lugar onde o professor não consegue ensinar e o aluno não consegue aprender.

Sou Professor e esse é mais um texto redundante, mais um lamento inaudível e inócuo, não sobre o Dia do Professor, mas sobre as condições de indigência a que a Educação nacional vem sendo submetida. Enfim, é mais uma tentativa, entre milhares, de chamar a atenção para a importância da Educação. Nesse momento me refiro a Educação como o campo no qual atuo como profissional e que defendo como estratégia para o desenvolvimento do conhecimento e crescimento individual e social. Pensar em Educação contempla desde aquela mais simples, afetiva e efetiva que se inicia junto aos familiares que nos dão as primeiras lições de vida mas que não bastam nem são suficientes para nossa sobrevivência social, ai entra a Escola, o ambiente onde serão aprimorados os comportamentos básicos, iniciados e depois desenvolvidos, em diferentes níveis, para domínio dos conhecimentos formais sobre o mundo e a ciência. É lógico que o Ensino faz parte desse processo, mas não basta. O Ensino -e a Aprendizagem seu resultado- como algo mais objetivo e destinado a um fim mais perceptível e verificável, não é suficiente para constituir uma pessoa plena de suas idiossincrasias.
Essa é a falácia deletéria mais praticada pelos “pretensos educadores”, ou seja, fazer a sociedade ignorar a falência da estrutura familiar e social e ainda acreditar que instruir, informar ou arrolar e disponibilizar um conjunto de dados seja suficiente para preparar alguém para ser “gente”. Assim surgem as “fabricas de diplomas” que vendem títulos à granel iludindo o “consumidor” que acredita tomar posse do conhecimento e assim ascender intelectual e economicamente na sociedade. Ledo engano!

O conhecimento pasteurizado e distribuído por instituições mercantis apenas abasta mais e mais seus gestores, empreendedores e associados, deixando seus “clientes” com um canudo na mão, uma dívida no banco e a desilusão no horizonte... Pena...

Sínteses como esta são fáceis de fazer e fáceis de desfazer ou ignorar... mesmo assim acredito que se em cada data recorrêssemos à nossa memória para aquecer as lembranças ou simplesmente não esquecer de quem já fomos, seria um modo de não perder o foco ou o rumo e, no mínimo, um ato de bondade e reconhecimento para todos aqueles que se dedicaram em um momento ou outro para que a humanidade ficasse um pouco melhor...

Agradeço a leitura e o compartilhamento, obrigado.

REFLEXÕES - Imagem e Arte: aproximações e afastamentos.


Meu mantra: "Imagem é uma configuração visual geradora de sentido". Este aforismo condensa numa frase o que, a meu ver, é a imagem e o utilizo como apoio para discorrer sobre ela e entendê-la melhor.
Grande parte das Poéticas em Artes Visuais se realiza por meio de imagens, contudo não significa que toda imagem seja Arte. Pode-se dizer que a aproximação entre imagem e Arte começou com a pré-história.

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Imagens da pré-história, Caverna de Altamira. Espanha.
Olhando para a aurora da humanidade vemos que foram justamente as imagens que constituíram as primeiras manifestações formais do ser humano e que, por sorte, chegaram até hoje. Desenhos, pinturas, incisões, modelagens, esculturas e construções fizeram parte da cultura humana desde o princípio.
Por isso se acredita que as imagens surgiram ao mesmo tempo que a Arte ou foi o contrário? Ao chamar àquelas primeiras imagens de Arte criou-se uma relação ambígua entre imagem e Arte e levantou uma questão importante: Fazer imagem já é, por princípio, um ato ou conduta artística ou para que uma imagem seja considerada Arte deve ter características ou propriedades específicas? Aqui reside a questão da aproximação e do afastamento entre estas duas instâncias.

A caverna de Altamira, na Espanha, é descoberta em 1868, ou seja, "oficialmente" só se descobre que o ser humano realizava imagens desde a pré-história a partir do século XIX, portanto, até então o que se conhecia da produção imagética eram aquelas realizadas a partir das civilizações da Antiguidade. Assim foi necessário retroagir o conhecimento das imagens de mais ou menos 10.000 para 40.000 anos e pior, como entender as imagens realizadas em períodos tão distantes e sem nenhuma pista?

Para melhor entender isso é só lembrar que, aos olhos do século XIX, a Arte Visual era associada às habilidades motoras. O artista era aquele que tinha o dom ou a capacidade de converter coisas, circunstâncias e cenas do mundo em imagens. Assim as imagens narravam, informavam, documentavam, representavam coisas do mundo. Grande parte da produção de imagens dependia das habilidades dos artistas, basta lembrar que o surgimento da fotografia só ocorre na segunda década do século XIX com um meio de "reprodução" e só no final dele é que se torna um meio "alternativo" para a "produção" de imagens.

Neste linha de raciocínio é admissível que as imagens pré-históricas, ao serem descobertas, fossem admitidas como artísticas. Me parece ter sido esta a primeira, mais plausível ou mais adequada hipótese para justificar sua existência naquele momento, só mais tarde foram aventadas outras possibilidades entendendo-as sob um viés mais antropológico vinculando-as às finalidades rituais, místicas e simbólicos. Nesse sentido, chamar de Arte àquelas imagens foi mais uma questão de reconhecimento cultural do que estético, no entanto, dada às suas características plásticas, não há como negar a presença de componentes estéticos.

Contudo não parece ser razoável pensar que o conceito de criação/apreciação estética amparasse ou mobilizasse a expressão naquele momento. Não se sabe nem mesmo o gênero de quem as realizou, nada impede de acreditar que pudessem ter sido realizadas por mulheres. É possível até justificar isso considerando que, ao cuidar da prole, no abrigo das cavernas sob as intempéries, estivessem mais presentes e disponíveis para realização daquelas imagens do que os homens que, supostamente, estariam fora e dedicados a coleta e à caça.

Os elementos visuais que orientam a estética plástica e sustentam até hoje a expressão nas manifestações da Arte Visual já estavam presentes naquele momento, sabe-se que não é possível atestar ou confirmar que aquelas obras tivessem apenas finalidade  artística, mesmo porque as concepções estéticas e conceituais que fundamentam o que se passou a considera Arte só se consolidaram, de fato, há bem pouco tempo. Somente a partir da Idade Moderna, com o Renascimento e as Academias de Arte, que os valores artísticos passaram a ser reconhecidos como distintos dos fazeres técnicos e artesanais que dominaram por muito tempo a produção de imagens.

Se num primeiro momento as imagens atendiam às necessidades rituais e mágicas, aos poucos foram sendo usadas para manifestar o poder dominante na sociedade, fosse por meio de sua presença nos palácios, templos e túmulos, ornamentando-os ao gosto e interesse de seus governantes, enaltecendo seu feitos e conquistas. Deixaram de ser feitas para dialogar com o sobrenatural e encantar os olhos dos deuses, mas para os olhos humanos e, principalmente, informar as conquistas e a força do poder, estabelecendo distinções entre opressores e oprimidos. Os combates, as guerras, a dominação se torna um tema comum e explícito nas imagens desde a antiguidade.

Estela de la victoria del rey Naram-Sin, hecha en piedra rosa. Los cuernos indican su paso a la divinidad.
Detalhe da estela de Naran-Sin, rei acadiano, cuja peça entalhada em arenito rosa, datada de 2.500 a.C., narra sua vitória sobre os inimigos.
Esse sistema narrativo está para a Arte assim como a propaganda está para a comunicação social. 
Registrar e difundir informações não garante conteúdos artísticos ou estéticos, apenas se apropria deles e lhes dá outro destino ou função social. Usando este raciocínio, é o mesmo que entender as imagens produzidas contemporaneamente nas mídias de comunicação social como expressão artística e não como meios de comunicação e estas imagens, são Arte?

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O Massacre de Quios, Eugene Delacroix, 1823. Em 1822, os gregos da ilha de Qios são mortos pelos turcos na Guerra pela independência da Grécia. Delacroix resolve tratar desse assunto  e fazer dele um alerta contra este tipo de atrocidade.
Delacroix usa de suas habilidades de artista para plasmar uma cena em que os vencidos, prostrados, revelam a barbárie humana. A temática social de índole ideológica é construída mediante os procedimentos da estética Neoclássica que dominava os primeiros anos do século XIX.

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Soldado ferido mostrado por Roger Fenton, realizada em 1856 durante a Guerra da Criméia. Uma das primeiras imagens fotográficas tomadas em ambiente de conflito. 

Com o advento da Fotografia, a produção de imagens deixa de ser exclusivamente realizada pelas mãos humanas e passam a ser produzidas e reproduzidas por aparelhos e máquinas. Neste sentido podem ser tomadas como registros de fatos e eventos, tornando-se documentos, testemunhas visuais incontestáveis de acontecimentos. Com isto surge outro impasse: a imagem fotográfica é Arte ou Documento?

Polêmica à parte, a produção de imagens por meio de aparelhos e sua reprodução e distribuição impressa assume uma dimensão tão grande e intensa constituindo sistemas de informação e narrativos capazes de comunicar dados e interferir nos percursos culturais chegando a ser estudadas como um fenômeno social na Cultura Visual. Simultaneamente as imagens produzidas por esse sistema passam a ser usadas na publicidade tornado-se uma presença constante no mundo atual, servindo até como estratégia  de criação artística na estética da Pop Arte e da Arte Conceitual e pós-moderna.


A obra "Retroativo I, de 1964, de Robert Rauschenberg, construída a partir da colagem de várias fotografias publicadas na época reverte o processo de informação para o processo estético-criativo.
A partir das constatações aqui arroladas é possível admitir que uma imagem pode cumprir várias funções simultaneamente sem que uma esvazie outra. Pode ser, ao mesmo tempo, Arte e informação, a questão é identificar quando isso acontece ou como estas interposições ou interpolações são realizadas intensificando ou diversificando funções estéticas ou pragmáticas.

Um bom exemplo disso são as fotografias publicitárias ou de moda, que operam qualidades e valores plásticos ou visuais com igual ou maior desenvoltura do que um artista, realizando obras dignas da mais sofisticada poética artística, no entanto, por mais que tais imagens igualem ou superem as qualidades plásticas ou visuais da produção artística, isso não é, por si só, uma garantia de “artisticidade”, embora tenham potencial para isto.

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Foto de Man Ray, de 1936 para a revista de moda Vogue, reúne aspectos estéticos e publicitários em abordagem inovadora por meio da luz e composição.

Ao fim e ao cabo, o que define se uma imagem é uma Obra de arte é, sem dúvida, sua destinação estética. As Obras de Arte visam relações de caráter conceitual e estético, visam a apreciação, fruição, como coisa da Arte e não só da mídia de informação. Uma construção artística não se destina, por princípio, a nenhuma função pragmática ou técnica, portanto, não se desvia ou ignora sua vocação original que é, em última instância a expressão artística.

Grato pela leitura, agradeço o compartilhamento.

REFLEXÕES - É possível definir Arte?

Provavelmente todos tenham um entendimento do que é Arte.
O historiador, artista, crítico e professor Frederico Moraes publicou em 1998, pela editora Record, um livro intitulado: "Arte é o que eu e você chamamos Arte: 801 definições sobre Arte e o Sistema de Arte", contudo, nem todas as "definições" que ele arrola são embasadas conceitualmente ou no conhecimento da área, mas também em compreensões paralelas, informais ou parciais e mesmo conflitantes, seja de filósofos, artistas, cientistas, críticos, jornalistas entre outras pessoas que, em um momento ou outro, se sentiram "iluminadas" e deram um pitaco nesta área. O próprio autor é "autodidata" em Arte, como se diz: formado na vida... Embora com uma trajetória invejável de artista crítica, escrita e curadoria não frequentou os bancos escolares da formação artística o que não o impediu de realizar uma produção de excelente nível e qualidade neste contexto.

Identificar, distinguir, interpretar, entender O que é Arte, tem sido uma questão recorrente tanto no meio acadêmico quanto no senso comum. O meio acadêmico, como responsável pelo balizamento do conhecimento como um todo, se esmera e se aprofunda na compreensão e distinção do saber em todas as áreas, isto não é diferente no campo da Arte. Contudo, os esforços que têm sido dedicados a ela não tem surtido o efeito necessário e esperado na sociedade.

Pode-se justificar tal entendimento ao levar em conta que entre a pesquisa, o desenvolvimento do conhecimento científico praticado nas instituições e Ensino Superior, não atinge a sociedade na mesma proporção de suas conquistas, ou seja, a educação proporcionada à sociedade não consegue acompanhar ou atualizar o que se sabe no mesmo ritmo do desenvolvimento, assim, há um constante atraso, um "delay" entre a pesquisa e sua aplicação e "feedback", cujo retorno é lento ou tardio.

O que dizer da dificuldade em alcançar uma formação geral que, ao mesmo tempo que medie o domínio de conhecimentos básicos também prepare a sociedade para a compreensão da cultura como um todo. Assim, o que se sabe sobre Arte, na maior parte das vezes, é obtido parcial ou informalmente e, em geral, do senso comum.
O ser humano, por natureza, tem a necessidade de compreender as coisas, independente de estar no mundo natural ou na cultura. Esta necessidade leva a buscar explicações, justificativas e isto, consequentemente, gera Conhecimento. Organizar, sistematizar o conhecimento é uma tarefa contínua e dinâmica que depende de revisões contínuas, reavaliando, confrontando e estabelecendo novos princípios e valores.

No campo da Arte, por sua dinâmica própria, é praticamente impossível alcançar uma "definição" "definitiva" do que ela seja. Muitos artistas, teóricos, estetas e filósofos, escritores, jornalistas e críticos, vez ou outra, sentiram tentados a fazer isso. Digo tentados, pois definir soa como algo finalizado, acabado e que não precisa ou não necessita mudar, mas as coisas não são assim. Definir é uma responsabilidade muito grande, requer conhecimento, visão geral e específica e, principalmente, a compreensão de que o que se define não está sujeito a mudanças, que seja uma constante imutável e permanente. Se levarmos isso ao "pé da letra" nem mesmo a física, que se dedica aos estudos das ciências naturais, tem toda a certeza de que o que sabe hoje não mudará amanhã. O que dizer então da Arte? Especialmente da Arte Visual, campo em que atuo?

A Arte comporta diferentes olhares e leituras, portanto, diferentes modos de vê-la e pensa-la em cada tempo e lugar, em cada civilização, em cada sociedade, em cada cultura e mesmo cada indivíduo que a pense acaba assumindo uma versão dela. Resta então tentar encontrar algumas características que lhe sejam comuns e, por meio delas, identificar o que pode ser e o que não pode ser entendido como Arte num dado período e contexto cultural.

Um primeiro aspecto que pode ser levado em consideração é que a Arte, enquanto manifestação humana, sempre ocorreu em qualquer tempo ou lugar. Independente dos modos ou fins para o quais foram feitas, todas as civilizações produziram Obras de Arte e, consequentemente, ela sempre foi um dos elementos de identidade cultural e ajudou a distinguir uma sociedade de outra ou mesmo os diferentes estágios em que uma sociedade estava.

Um segundo aspecto é lembrar que as funções que ela exerce em cada momento social são diferentes de um para outro. Se para o ser humano pré-histórico a arte serviu para evocar vibrações positivas para empreender e propiciar a caça ou simplesmente para ter algo para seu deleite ou apreciação, para o ser humano contemporâneo não funciona assim, pode-se dizer que serve tanto para posicionar-se estética ou politicamente na sociedade quanto para decorar, ornamentar um ambiente ou configurar um produto. Diversos usos e funções foram acoplados ou dispensados da produção artística ao longo dos séculos, logo, não falamos de uma coisas só, mas de muitas coisas e juntar tudo num só "pacote", é complicado.

Um terceiro aspecto, é que os modos de fazê-la e os locais em que surgia também se distinguiam entres essas sociedades. Na pré-história ocupava as paredes das cavernas, na antiguidade as paredes dos palácios, templos e túmulos. Na Idade Média as paredes das igrejas, na Idade Moderna adquiriu "portabilidade" por meio da chamada Pintura de Cavalete, hoje em dia nem as paredes a suportam... ocupam o ambiente, o espaço público e a face da terra...

Podemos então dizer que a arte assume em cada momento e em cada lugar, um modo de existência que não se coaduna necessariamente com outro, logo, é impossível esperar que uma simples definição dê conta de toda sua complexidade. É possível que a Arte seja uma das maneiras que a humanidade tem de se manifestar seja enquanto sociedade ou como indivíduo e, por meio dela, é possível entender melhor esta sociedade pelo simples prazer ou fato de saber "onde se está pisando", quem somos aqui e agora. Esse poderia ser então o primeiro elemento para sua compreensão e entendimento: o fato de ser uma Manifestação presente, recorrente e que pertence à humanidade.

Entretanto, existem manifestações que expressam as mais diversas índoles humanas, como podemos então, diferenciar aquelas chamamos de artísticas daquelas que não se chama assim? Por exemplo, um bebê se manifesta quando chora, provocando uma reação na sua mãe que a leva a tomar alguma atitude em relação a ele dependendo do tipo de choro que identifica: pode lhe oferecer alimento, carinho, cuidados terapêuticos, enfim o choro tem significações e sentido que podem ser interpretados. Uma pessoa pode manifestar sua indignidade em relação a algo e esbravejar, entretanto, tanto esta manifestação quanto o choro da criança, expressam sentimentos e intenções que são reais, mas são Arte?

Pode-se dizer que não é este tipo de expressão que interessa no contexto da Arte. Para facilitar o entendimento do que tento dizer é só imaginar situações semelhantes a essas numa peça teatral ou num filme: Uma mãe, ao ouvir o choro do filho, corre até ele para verificar sua segurança, ao tomá-lo em seus braços percebe sua fome e o alimenta e embala. Nada mais sublime para significar a atenção e o carinho que a mãe dedica ao filho. Neste caso, o que se vê é uma representação na qual o tema pode ser a atenção materna e o choro como indicador da fome, o elemento deflagador da situação, mas ele não é o fator essencial de sentido e de significação, como dito, o sentido que se espera se refere ao amor materno. O outro exemplo, do sujeito que esbraveja, ao fazer isto no mundo natural, poderá causar o constrangimento ou indignação entre as demais pessoas com as quais dialogue ou que estejam próximas. Ao transpor esta situação para a ficção, no cinema ou o teatro, o que se tem é uma representação de um estado de ânimo, forada realidade e uma introdução no campo da ficção e da fantasia, da criação. Assim é possível distinguir algo que ocorre no mundo natural, daquilo que ocorre no mundo da cultura ou da Arte.

A Arte Visual lida com fatores e elementos visuais, tanto plásticos como técnicos e tecnológicos que operam em bases imagéticas. Digo imagéticas por considerar que a construção de imagens não é só coisa da Arte, mas uma das coisas que a Arte opera, ou seja, a Arte Visual contém imagens mas nem toda imagem é arte. Sempre digo, quase como  um Mantra, que: "Imagem é uma configuração visual produtora de sentido". Contudo o sentido produzido por elas nem sempre estão no contexto da Arte. Podem estar em outros contextos como os da publicidade, propaganda, comunicação visual, design, projetos arquitetônicos, gráficos e em muitos outros com os quais convivemos na sociedade e na cultura. Portanto, imagem e Arte podem estar juntas ou não. Isto tem a ver com a questão da atribuição, proposição ou com os destinos dados às imagens em cada tempo e cada lugar.

A expressão artística, portanto, promove uma reoperação, a ressignificação de estados e valores para destaca-los com o fim de refletir sobre eles ou simplesmente adota-los como tema ou assunto. Pode até imita-los, reproduzi-los mas não os adota-los como reais ou parte do mundo natural ou como se fosse verdade absoluta e irrefutável, sabe-se que a Arte trabalha com efeitos de sentido e não com eles propriamente ditos. Pode-se dizer então que opera com valores estésicos que são sentidos e sensações advindas da apreensão e significação do mundo, chamados por Alexander Gotlieb Baumgarten, em 1750, de Estéticos. Inaugura assim a Estética como ciência do Belo e da Arte, como intitula seu livro. Assim temos o segundo elemento importante para a compreensão da Arte a Estética, ou seja um tipo de manifestação especial que não se importa muito com o que está no mundo mas com o que está no seu próprio contexto, o da Arte.

Como professor, me senti na obrigação de tentar encontrar um meio de facilitar a compreensão do que se pode entender por Arte. Seguindo o raciocínio aqui explicitado, recorri a três aspectos distintos e necessários para a compreensão da Arte: ela é humana e só existe ao ser manifesta/expressa segundo critérios e valores estéticos.
Deste modo pude formular uma explicação capaz de reduzir um conceito complexo em uma só frase:
"Arte é a manifestação estética da humanidade".

Embora pareça uma afirmação tautológica, comporta uma explicação plausível e, por meio dela, é possível abordar o que é Arte, pelo menos no contexto acadêmico e pedagógico com o qual lido.
Acredito que ela ajude a entender o conceito de Arte, pois não há dúvida de que a Arte só existe por meio de sua manifestação aos sentidos; também não há dúvida de que uma manifestação artística para ser assim compreendida, deve ocorrer a partir de proposições de caráter estético ou, pelo menos, com ele dialogar; o terceiro ponto é constatar que só o ser humano é capaz de produzir Arte já que os outros animais ou seres vivos não são capazes de se expressar esteticamente dentro ou fora da Arte já que não se comportam volitiva ou conscientemente com tal intenção.

Grato pela leitura, espero que tenha ajudado a melhor entender o contexto da Arte Visual, agradeço o  compartilhamento, obrigado.

REFLEXÕES - Curadoria: Mediações necessárias.

Projeto "EX LIBRIS", detalhe, Isaac, 2019.

Mediação é um termo usado para descrever a busca de equilíbrio em estados de conflito, usado no ambiente jurídico. No contexto da Arte Visual entende-se a Mediação como o processo de criar interação entre Obras e pessoas...
Não é simplesmente descrever ou explicar uma ou um conjunto de Obras, mas proporcionar, a quem aprecia, meios para que desenvolva sua própria capacidade de reflexão e análise. Obviamente não é um trabalho fácil, a Educação formal que temos não dá conta nem do básico, tampouco deste tipo de aproximação, esta foi a ideia da criação da disciplina de Educação Artística no primeiro e segundo graus de ensino na década de 1970 no Brasil, cuja falência nos levou ao estado de inanição estética em que vivemos hoje, ai é que entra a tal Mediação.

As transformações pelas quais a Arte Visual passou desde os primórdios da Modernidade em fins do século XIX até meados do século XX e, principalmente, a transição para a contemporaneidade instaurada pela Pós-Modernidade colocou novas questões sobre a Arte, seus procedimentos conceituais, pragmáticos e estéticos criando mais problemas do que soluções, tanto para os teóricos, pensadores e críticos quanto para as pessoas, coitadas, simples apreciadoras...
Mediação deixou então de ser um processo passivo e se tornou ativo: Não basta estar, tem que participar!

A busca pela "interatividade" motivada pelas novas proposições artísticas e pelo afastamento compulsório do público, fez com que as instituições passassem a se preocupar com a dificuldade crescente das pessoas em dialogar, se apropriar ou, no mínimo, assimilar dados, informações ou conceitos veiculados pelas Obras de Arte. Assim, as buscas por uma espécie de abordagem pedagógica sobre a Arte levou a criação, desde a década de 1970, de novos conceitos como Leitura Visual, Literacidade Artística, Comunicação Visual, Educação Estética, Educação Artística... e mesmo aos conceitos operacionais destinados a criar elos de ligação entre Obras e público como os de Curadoria, Projeto Expositivo, entre outros na tentativa de resgatar as pessoas da incompreensão da Arte, já que a Educação Formal não consegue dar conta disso.

Nos últimos anos, em especial a partir da década de oitenta do século passado, temos ouvido falar em “Curadoria” quando se trata de organização de eventos artísticos ou culturais. Este é um termo que tem sido usado e aceito em várias regiões do globo para se referir à produção de eventos nestas áreas. Mesmo que tenha sido tomado de empréstimo da área jurídica, que se referia à nomeação de alguém para administrar bens de menores ou de pessoas que, por um motivo ou por outro, eram incapazes ou impedidas de gerir seus próprios destinos, passou a ser bem-vindo na Arte.
Inspirado na administração pública em que Conselhos Curadores são criados para gerir bens institucionais, mas de qualquer modo, o termo “Curador”, acampou no contexto da arte e, pelo jeito, não vai mais sair.

É possível justificar a existência dos curadores pela crescente necessidade de especialização requerida pelo contexto da arte contemporânea, por um lado, para dar conta de suas idiossincrasias e inovações e, por outro, para intermediar a relação entre as obras e o público.
É importante destacar que se instaurou um novo campo de estudo e atuação profissional para a formação artística ampliando o campo do conhecimento e do pensamento artístico junto aos historiadores, estetas, teóricos e críticos.
Os grandes eventos artísticos têm reforçado a necessidade da presença destes especialistas a cada nova edição. É o que está ocorrendo, por exemplo, com as bienais no Brasil e no exterior. É difícil pensar, hoje em dia, numa mostra que prescinda de curadoria. Até mesmo as mostras individuais têm-se valido dela para tornarem-se mais eficientes, mais claras e melhor entendidas pelo público. Neste sentido a interação entre Apreciação-Educação-Formação do público é também uma missão institucional.

Também na academia esta área vem se mostrando como uma especialidade para a formação graduada e pós-graduada, diversas instituições de ensino superior vêm organizando cursos com esta finalidade. Embora a ideia de curadoria tenha sido vítima de "maus tratos" e enfrentado a resistência de artistas e críticos de arte, especialmente no que se refere ao aspecto autoral, já que a autoria das Obras compete com a autoria da Curadoria, logo, há mais de um autor em diálogo num mesmo processo.
Parecia que o artista perdia o primado da autoria, pois o curador diz ao público como apreender e dialogar com a obra, coisa que era de exclusividade do artista e o crítico, por sua vez, perde a primazia da análise em primeira mão, pois ao leitor já foram antecipadas dados que o auxiliam a tirar suas próprias conclusões. Tanto um quanto outro se sentiram desprestigiados e tentaram minimizar o efeito da Curadoria, ainda bem que não conseguiram.

É necessário entender que, justamente pelas condições da arte contemporânea, que o surgimento da curadoria é, por assim dizer, uma condição necessária e que leva tanto ao aprofundamento da função crítica quanto do conhecimento sobre Arte. O curador, ao selecionar obras e organizar o modo de mostrá-las, passa a exercer, de antemão, uma função que antes cabia ao crítico, mas que era exercida a posteriori. Nas condições da arte atual, não é mais possível esperar pela intermediação do crítico para a compreensão das obras já que, grande parte delas é realizada em “tempo real”, ou seja, performances, instalações, intervenções devem ser compreendidas e assimiladas “on time”, portanto, se dependerem de algum esclarecimento, ele deve ser dado simultaneamente, ou seja, ao mesmo tempo em que o evento ocorre, senão corre-se o risco de falar ao vazio.

Obviamente o curador não é artista nem crítico ou, pelo menos, não exerce estas funções ao realizar o processo de curadoria. Embora sua atuação possa ser confundida ora com um, ora com outro já que há uma “assinatura” no conjunto da mostra que revela um percurso, uma proposição e, até mesmo, uma condução autoral. Entretanto, não há curador capaz de transmutar água em vinho, tampouco prescindir do artista ou do crítico, a cada um cabe a habilidade do seu fazer.
Penso que o curador tem se configurado como mais um elemento que, ao inserir-se no contexto ou no sistema de arte da atualidade, o faz para lhe dar-lhe mais eficiência cultural e institucional. Ao fim e ao cabo, vemos que o curador vem se tornando um dos responsáveis pela mediação entre arte e público, tanto quanto são os críticos e demais teóricos da arte.

A complexidade da qual vem se revestindo a arte nas últimas décadas, mostra que ela não é coisa para amadores, ao mesmo tempo, precisamos acabar com a ideia de que a arte é um universo de código fechado que só serve para os artistas e seus agregados. Fica claro que sem Mediação eficiente a Arte estará cada vez mais distante do público. Sem orientação será cada dia mais difícil integrá-la ao contexto social como um elemento significativo da nossa cultura. É neste sentido que tanto a crítica quanto a curadoria, são elementos importantes para a formação do pensamento estético e contribuem, sem sombra de dúvida, para o crescimento da arte e para o desenvolvimento de suas análises, portanto a Crítica e a Curadoria são duas áreas coadjuvantes, integradas e responsáveis, ao mesmo tempo, pelo processo de construção de um projeto que visa a consolidação do pensar, do fazer e da compreensão da arte como Conhecimento e bem cultural imprescindível ao ser humano.

Agradeço a leitura e o compartilhamento... ou mediação!

REFLEXÕES - A questão da crítica em Arte

É comum ouvirmos dizer que a crítica é responsável pelo julgamento das Obras de Arte, ou seja, a responsável por aferir valores e dizer quais obras devem ou não pertencer ao Sistema de Arte.
O termo crítica é o substantivo feminino de crítico, cuja origem vem do grego kritikós resultando no latim criticu, cujo sentido, em geral, se refere à apreciação, valoração e julgamento de Obras de Arte. 
A meu ver, a atitude crítica é sempre uma conduta analítica que parte da apreciação e tem como objetivo estabelecer ou reconhecer aspectos intrínsecos ou extrínsecos às Obras mediante comparação ou confrontação com as demais manifestações representantes da mesma espécie, lastreados numa mesma cultura ou ambiente social de tal modo que os parâmetros sejam identificáveis e plausíveis dentro daquele contexto.
A crítica pode ser feita sobre um conjunto de obras constituído pela produção de um autor, de um período ou mesmo sobre uma só obra que chame a atenção ou mereça destaque no contexto da cultura. 
Acredito que a atitude crítica deva ser sempre analítica e qualitativa e não só opinativa cujo resultado seja apenas um julgamento raso de valor: bom ou ruim ou pessoal gosto ou não gosto. 
Deve estabelecer parâmetros entre as condições sócio-culturais, técnicas e estéticas de um lugar, período ou manifestações cujo resultado seja capaz de mediar a relação entre a produção artística e o público e, assim, promover o conhecimento sobre Arte. 
Pode-se refletir ainda à respeito de que valores são adequados para uma mediação crítica. É comum ouvir que há dois tipos de crítica: uma positiva e outra negativa. A positiva, em geral, enaltece a obra ou o criador e, ao contrário, a negativa denigre um, outro ou ambos.

Podemos citar como exemplo negativo, o caso da crítica feita a Anita Malfatti por Monteiro Lobato, realizada com extremo mau humor e agressividade, motivada, talvez, pela sua incapacidade de compreender as mudanças pelas quais a arte daquela época passava. Se quiser ler acesse o texto no meu ambiente virtual de aprendizagem: http://www.artevisualensino.com.br/index.php/textos?start=50

Penso que os valores ponderados nas análises críticas devem ser embasados no conhecimento estético construído no percurso da história. Há momentos em que aspectos técnicos são mais importantes ou evidentes do que valores estéticos ou conceituais e, em outros momentos, pode-se observar o contrário. Logo a crítica deve se preocupar com sua vigência, sua validade no seu tempo e no seu lugar. 

Contemporaneamente as atitudes críticas que defendam valores absolutos, rígidos ou definitivos não encontram respaldo no contexto já que a cultura é um organismo dinâmico e em constante mutação, logo, a crítica mais preciosa é a que se faz à luz da sua própria época. Que analisa, avalia e explica a arte em relação ao nosso tempo e constrói o conhecimento para nosso entendimento.

A crítica é importante para balizar o entendimento da arte ou, pelo menos, para nos mostrar a importância da Arte no contexto social na medida em que ela pode refletir as mudanças de atitude, de proposições em contraponto com as mudanças sociais.
De modo geral, deve-se afastar da crítica mal intencionada, depreciativa já que os parâmetros para julgamento estão na própria obra e no contexto cultural em que ela existe e não no gosto ou no interesse de um crítico em particular. artista, conjunto de obras, Deve-se afastar também da crítica dirigida, conduzida para um determinado artista, colecionador ou marchand.
Não há verdade absoluta ou exclusividade de julgamento ou do próprio pensamento crítico. É necessário que o exercício crítico seja livre e isento de influências e de interesses pessoais. Do mesmo modo que a expressão artística é impregnada de valores culturais, crenças e tendências, o texto crítico também estará contaminado pelo um olhar da época, por mais criterioso que seja o crítico. 
É de se esperar que os críticos sejam oriundos do meio em que exercem sua crítica, entretanto, não é incomum que, indivíduos originários de áreas correlatas ou mesmo de áreas completamente diferentes das da arte, exerçam a crítica de arte. 

O risco é que pessoas de diferentes áreas ao se dedicarem ao pensamento crítico, não o fazem com critérios adequados, portanto, suas críticas tendem a ser superficiais ou desfocadas.
Para se fazer crítica conseqüente, a base de tudo é a informação. Há que se conhecer as diferentes teorias da arte, os diferentes artistas de uma dada época sobre a qual se debruça. Não é possível pretender um julgamento adequado sem ter o conhecimento adequado e um domínio de causa pertinente.
É o que penso. Agradeço a leitura e o compartilhamento. 

REFLEXÕES - Obra de Arte ou Ocorrência Estética?

"Em Conserva". proposição conceitual, Isaac, 2019



Durante muito tempo, no campo da Arte Visual, o conceito de Obra de Arte esteve vinculado ao objeto físico, materializado e acabado num suporte bidimensional ou tridimensional. A apropriação estética, por parte do público, se dava diante da obra por meio de apreciação, em geral, passiva.
Cabe também esclarecer que Estético ou Estética não é sinônimo de Forma ou apenas Plástico ou, pior, Cosmético, tampouco qualquer outra interpretação insólita deste termo. Estética, a partir de Alexander Gotlieb Baumgarten, em 1750, passou a ser entendida como um campo de abordagem e conhecimento da Arte. Embora tenha surgido como um ramo da filosofia, passou a se dedicar aos estudos dos princípios e procedimentos poéticos da criação artística.
O termo Estético é um Substantivo, portanto se aplica a um campo de estudo, à essência da Arte e não um Adjetivo, que se usa para classificar ou distinguir a aparência de algo interessante, bonito ou agradável como  se pudesse por ou retirar a "esteticidade" das coisas... No senso comum acredita-se que transformar algo feio em bonito é torná-lo "estético"!

Portanto, entendemos Estética como uma Constante, uma conduta consciente e conceitual que se refere aos procedimentos que motivam e amparam a criação artística, independente das variações/variáveis poéticas ou proposições adotadas pelos criadores. Portanto, a essência da Arte e não algo opcional ou eventual que pode ou não participar da criação. Estética é uma condição sine qua non para a existência de uma Obra de Arte!

O advento da Modernidade,  a partir de fins do século XIX, possibilitou o surgimento de novos procedimentos artísticos e, consequentemente, novas proposições estéticas. Os modos de fazer, instaurar, de produzir Arte mudaram, como também mudaram os modos de entendê-la e apreciá-la.
Se antes a Obra de Arte era uma coisa na qual residia e à qual pertencia a função estética na medida em que as coisas podiam assumir ou simplesmente adotar uma função estética de acordo com seu autor ou sua proposição "desmaterializando-a", com isto instaurou-se um dos grandes problemas para as teorias da arte assim, tanto os críticos quanto os estetas se mobilizaram para entender e clarear este novo campo de procedimento cujas manifestações não seguiam mais os padrões ou condições anteriores: nem sempre podiam ser entendidas tradicionalmente como "Obras" mas... como Ocorrências Estéticas!

Durante todo o século XX, a destituição do objeto enquanto aparato e residência dos valores artísticos provocou um novo problema: como identificar o que chamávamos Obras de Arte? Será que a não materialidade também admite algum tipo de nomeação?

Pode-se dizer que uma das tendências que deram origem à Arte não Objetual foi a do Dadaísmo: um conjunto de procedimentos adotados por um grupo escritores, intelectuais e artistas em 1916, em Zurique na Suíça durante a Primeira Guerra Mundial, que se tornou um dos movimentos mais radicais do século XX. As proposições Dadaístas valoravam muito mais as idéias e menos os Objetos que podiam servir para sua mediação, assim os conceitos passam a ser mais importantes do que os objetos e as obras decorriam das proposições e não das poéticas ou das técnicas tradicionais.
Tais obras resultavam de montagens, apropriações, colagens, construções, intervenções, instalações, instaurações e performances nas quais a questão de ser ou não um objeto era circunstancial e não um fim, em si.
Grande parte do que faziam chamaram de Anti-Arte já que, por princípio, se negavam a praticar o que se entendia convencionalmente por Arte naquele momento, consequentemente, assumiram/adotaram comportamentos sui generis, cuja prática criativa foi nomeada de Dadaísmo: um processo de criação livre, especulativo, inventivo e, principalmente, conceitual.  Uma atitude que rompia, inclusive com a Modernidade, ou seja, a provocação de um pensamento "Trans-moderno"...
É necessário ponderar que ao prescindirem da objetualidade não implicou necessariamente em prescindir da esteticidade. O que acabaram fazendo foi instaurar novos procedimentos, novos modos de configurar o que se poderia chamar ainda de Obras de Arte, assim  não as anularam, mas estabeleceram novos procedimentos e proposições para realizá-las. Pode-se dizer que "o tiro saiu pela culatra" ou que "o feitiço virou contra o feiticeiro", pois tudo o que des-fizeram/fizeram serviu de base e amparo para as pesquisas em Arte que surgiram a partir da Modernidade e que embasaram a Pós-Modernidade e até hoje, dialogam com a contemporaneidade.

As Performances, Instalações, Intervenções que os Dadaístas faziam promoviam experiências estéticas em situação, ativa e interativa gerando  novos modos de apreciação e fruição estética.
As novas manifestações são ocorrências que não conservam os procedimentos tradicionais, logo, exigem novas abordagens para seu entendimento e apreciação.
Chamo tais manifestações de "Ocorrências" para facilitar a distinção das anteriores. Atribuir uma função estética a um objeto "não artístico" exige do apreciador uma reflexão de caráter estético e conceitual ativo. O mesmo se pode dizer a respeito da apreciação de instalações e performances, tais manifestações passam a reduzir ou eliminar a passividade do espectador, eles precisam se posicionam, deslocar, interagir com as proposições, evocar vivências, experiências e conhecimentos, logo, ao se integrarem aos processos e procedimentos artísticos são elevados ao estado de co-autores e, mesmo que não tenham o domínio pleno do que vêem ou sente, dialogam e incorporam conceitos e valores estéticos. Neste sentido a Arte Contemporânea é interativa e mais integrada à vida do que a Arte Tradicional.

A mudança de paradigmas estéticos que ocorreu desde a Modernidade provocou também mudanças  conscientes juntos aos apreciadores e estudiosos, assim como também no Sistema de Arte, fazendo com que os marchands, colecionadores e instituições relacionadas à Arte revissem suas posturas e crenças.

Este olhar que chamei antes de Trans-Moderno, implica na consciência de que a Modernidade, em meados do século XX, já vinha cumprindo sua vocação e já revelava um certo esgotamento e que o Dadaísmo seria uma injeção de ânimo capaz de transformar o passado recene em futuro...
Portanto se torna também necessário readequar o pensamento sobre Arte de tal modo que se encontre,  além dos novos modos de dizer, novos modos de pensar, discutir e apreciar as manifestações contemporâneas sem contaminá-las com preconceitos ou recorrência aos olhares anteriores. Neste o conceito de Obra de Arte Visual que implicava em manifestações, quase sempre objetuais, agora admitem existirem como "Ocorrências Estéticas" mesmo que, eventualmente, surjam por meio de objetos.

É óbvio que a questão da nomenclatura não é o aspecto essencial desta análise, a questão é mais metodológica do que de identificação, pois o que importa é como olhamos o que olhamos.
Antes a existência o objeto era uma prova cabal da existência Artística, Walter Benjamin, já declarara que a reprodução de uma Obra de Arte provocava a perda de sua Aura. Esta "Aura" seria, supostamente sua alma, ou seja algo inerente e decorrente de sua individualidade, originalidade e unidade que seria destruída ou, pelo menos, amenizada por meio das reproduções difundidas sobre ela que tiraria sua "originalidade", no fundo, o que nos tiraria de fato seria a surpresa diante de algo que nunca tínhamos visto... meio piegas ou lírico, mas pouco relevante. O que importa é entendermos que sua essência, sua artisticidade ou esteticidade, não se perde, se aprofunda!

Tal aprofundamento implica em rever as questões anteriores e admitir novas estratégias de criação e apreciação. Quando as obras tinham corpos, eram visíveis, transportáveis, colecionáveis, comercializáveis e até “museologizáveis” era fácil identificá-las, avaliá-las, valorá-las, mas ao perdê-los ou recria-los, reordena-los ressignificando os modos de ser da Arte Visual, como seriam as novas relações com elas?

Se as obras tradicionais recorriam aos temas convencionais e corriqueiros como os mitológicos, religiosos, históricos ou alegóricos para viabilizarem seus trabalhos por meio de narrativas visuais, descrições explícitas e figurações pontuais obtidas da literatura já consagrada anteriormente, como lidar com este novo tempo, com estas novas possibilidades?

A quebra da visualidade retiniana, reprodutiva, mimética e interpretativa das obras anteriores é reordenada pela ressignificação de valores estéticos que, em boa parte, são amparados em qualidades conceituais, afetivas, fenomênicas e propositivas. As qualidades estéticas, sensórias e materiais são ordenadas para construir novos sentidos e significações substituindo, em parte, as descrições literárias que amparavam a Arte Visual Clássica, Acadêmica e Tradicional. Por meio das qualidades que amparam os processos criativos e pragmáticos das poéticas contemporâneas é possível analisar e compreender que uma Obra de Arte (ou Ocorrência Estética) atual recorre,  imita ou dialoga com o visível ou invisível é um "Estado Estético".

Uma obra não é mais um ponto de chegada, mas um ponto de partida. As análises, reflexões que uma obra instiga, provoca é um diálogo muito mais importantes do que verificar se sua imagem ou descrição corresponde ao tema eleito pelo gosto tradicional.
Os sentidos, compreensão, leitura e interpretação não se dão mais na literacidade ou literalidade demonstrada pela visualidade, mas no diálogo entre a proposição artística mediante sua estrutura, sua configuração, no que está além de sua aparência formal e reside em sua essência conceitual, em sua esteticidade...

Agradeço a leitura e compartilhamento. Obrigado.